“Agente” e “a gente”: não confunda!

BÁSICO E IMPORTANTE. Hoje vou falar um pouquinho de ortografia. Essa palavra, em si, quer dizer “grafia correta”. A grafia, embora sirva para simbolizar os sons da fala, às vezes, representa sons iguais de maneiras diferentes. Isso acontece, entre outras razões, porque sons iguais podem representar ideias diferentes.

Veja-se o caso de “agente” e “a gente”. Ouvimos exatamente o mesmo som, mas, quanto ao significado e mesmo à grafia, o substantivo “agente” (uma só palavra) é bem diferente da expressão “a gente” (duas palavras), que é formada do artigo “a” seguido do substantivo “gente”.

“Agente”, termo que vem do verbo “agir”, significa “aquele ou aquela que age”  (do mesmo modo que “regente” é “aquele ou aquela que rege”). Você pode ter pensado em um “agente secreto”, uma pessoa que age em segredo, um espião, ou em um “agente da polícia”, que é um membro da corporação policial. Está correto, mas sem sempre o “agente” é uma pessoa.

Uma substância que provoca oxidação é um “agente oxidante”; nas descrições de cosméticos, o termo é frequente: os “agentes antienvelhecimento” são as substâncias que agem para deter a ação do tempo (!). Importa saber que “agente” é aquilo que age. Você vai encontrar essa palavra em um sem-número de ocorrências.

A expressão “a gente” não tem nada a ver com isso. No Brasil, pelo menos no registro informal da língua, vem tomando o lugar do pronome “nós”. É muito comum mesmo alguém dizer “A gente se conhece há muitos anos” em vez de “Nós nos conhecemos há muitos anos”. É com esse sentido que “a gente” aparece nos versos da canção “Comida”, dos Titãs, composta em 1987 por Arnaldo Antunes, Sérgio Brito e Marcelo Fromer: “A gente não quer só comida/ A gente quer comida/ Diversão e arte”. Se quiser, ouça a canção (abaixo), mas não se esqueça de continuar a leitura até o fim, certo? A letra completa, que, aliás, continua atual, está no fim deste post.

É possível também que você encontre a palavra “gente” usada no sentido de povo. É assim que ela aparece, por exemplo, nos versos do Hino da Independência (“Brava gente brasileira, longe vá temor servil/ Ou ficar a pátria livre, ou morrer pelo Brasil”). Fernando Collor de Mello, quando foi presidente do país (1990-1992), usava a expressão “Minha gente” para se dirigir à população.

“Gente” também pode ser qualquer pessoa (Havia muita gente na festa; Tem gente em casa?) ou mesmo a família de alguém. Neste último sentido é que foi empregada na canção “Gente Humilde”, muito conhecida na voz de Chico Buarque, que assina com Vinicius de Moraes a letra, musicada pelo violonista Aníbal Augusto Sardinha, o Garoto. Logo no primeiro verso, ouvimos: “Tem certos dias em que eu penso em minha gente“. Nos versos finais, “E eu que não creio, peço a Deus por minha gente/ É gente humilde, que vontade de chorar”, temos “gente” no sentido de familiares (“minha gente”) e no sentido, mais amplo, de pessoas (“gente humilde”).

Deixo a letra logo abaixo para você conhecer ou recordar essa composição de 1969, lançada em disco em 1970. Os aficionados da música popular brasileira vão gostar de ver o manuscrito de Vinicius, com as rasuras, no site do Instituto Antonio Carlos Jobim. Se quiser, aproveite para ouvir a música!

Gente Humilde

Tem certos dias em que eu penso em minha gente/ E sinto assim todo o meu peito se apertar/ Porque parece que acontece de repente/ Como um desejo de eu viver sem me notar//

Igual a como quando eu passo no subúrbio/ Eu muito bem, vindo de trem de algum lugar/ E aí me dá como uma inveja dessa gente/ Que vai em frente sem nem ter com quem contar//

São casas simples com cadeiras na calçada/ E na fachada escrito em cima que é um lar/ Pela varanda flores tristes e baldias/ Como a alegria que não tem onde encostar//

E aí me dá uma tristeza no meu peito/ Feito um despeito de eu não ter como lutar/ E eu, que não creio, peço a Deus por minha gente/ É gente humilde, que vontade de chorar.

Comida

Bebida é água/ Comida é pasto/ Você tem sede de quê?/ Você tem fome de quê?//

A gente não quer só comida/ A gente quer comida/ Diversão e arte/ A gente não quer só comida/ A gente quer saída/ Para qualquer parte//

A gente não quer só comida/ A gente quer bebida/ Diversão, balé/ A gente não quer só comida/ A gente quer a vida/ Como a vida quer//

Bebida é água/ Comida é pasto/ Você tem sede de quê?/ Você tem fome de quê?//

A gente não quer só comer/ A gente quer comer/  E quer fazer amor/ A gente não quer só comer/ A gente quer prazer/ Pra aliviar a dor//

A gente não quer só dinheiro/ A gente quer dinheiro/ E felicidade/ A gent não quer só dinheiro/ A gente quer inteiro/ E não pela metade//

Bebida é água/ Comida é pasto/ Você tem sede de quê? (De quê?)/ Você tem fome de quê?//

A gente não quer só comida/ A gente quer…

Publicado por Thais Nicoleti

Thaís Nicoleti é formada em português e linguística pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e licenciada pela Faculdade de Educação da mesma universidade.

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