GRAMATICAIS. A esgrima, embora tenha raízes em treinamentos militares no Antigo Egito e tenha sido praticada pelos gladiadores na Roma Antiga, ganhou, no século XVI, entre os nobres europeus, o status de uma arte refinada, tendo-se tornado um símbolo de elegância. Desde o final do século XIX, passou a integrar as modalidades olímpicas. Nosso tema hoje não é propriamente a esgrima, mas, como veremos, tem algo a ver com essa bela arte.
O leitor atento já terá ouvido a metáfora “esgrimir argumentos”, em que a destreza e o raciocínio rápido do esgrimista, cuja arte está em tocar o adversário e não ser tocado por ele, são associados à capacidade de manipular argumentos com esses mesmos objetivos. Pois bem. Foi com essa intenção que um articulista de jornal escreveu o seguinte trecho:
Esgrimando palavras vazias sobre direitos fundamentais, tinham como agenda principal um projeto de anistia para impedir que o ex-presidente vá parar atrás das grades. Incapazes de reconhecer e aceitar as regras do jogo democrático, recorreram a um expediente típico das ditaduras: a interdição do Congresso.”
O editorialista usou a forma “esgrimando” onde se esperaria “esgrimindo”, uma vez que o verbo é de terceira conjugação (esgrimir, como partir, sair, agir, conseguir, espargir etc.). Embora a forma “esgrimar” tenha existido em um passado distante, nada justificaria fazer uso de um arcaísmo em texto jornalístico.
Arcaísmos são o que o próprio nome sugere, ou seja, termos que pertencem a outra fase da língua. A maior parte dos dicionários nem mesmo registra a forma. No Houaiss, existe o registro, que vem seguido da abreviatura “ant.” (antigo). Bons dicionários mantêm o registro de formas arcaizadas para orientar a leitura de textos antigos. O fato de estar no dicionário, porém, não quer dizer que a palavra deva saltar de lá para uma página sem nenhum critério.
O mais provável no caso em questão é ter havido confusão com o substantivo “esgrima”, terminado com a vogal temática “a”. Contribui para o erro gramatical o fato de a primeira conjugação (verbos terminados em “-ar”) ser a mais fértil, a única em que novos verbos surgem no português atual. Em outras palavras, na dúvida, a pessoa acaba usando a terminação “-ar”.
Ainda que se possam entender os caminhos que levaram ao equívoco, é importante fazer a correção gramatical. De resto, o redator poderia ter usado “manipulando palavras vazias”, ua expressão mais simples. A imagem da esgrima, no entanto, aciona a ideia de disputa, que, de fato, vem animando o cenário político.
Vejamos a correção:
Esgrimindo palavras vazias sobre direitos fundamentais, tinham como agenda principal um projeto de anistia para impedir que o ex-presidente vá parar atrás das grades. Incapazes de reconhecer e aceitar as regras do jogo democrático, recorreram a um expediente típico das ditaduras: a interdição do Congresso.
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Sou licenciado em Letras pela UFMA, e mesmo não exercendo mais atividade de professor, lembro que a questão tratada pela eminente Profa., sempre foi motivo de dúvida, tanto para alunos universitários, quanto para alunos do ensino básico. Vendo a tese sob o ponto de vista do Direito, carreira na qual prentendo ingressar brevemente, ficaria mais fácil, hoje, para mim, dirimir o conflito (até que pelo mesmo motivo seja “decretado” o arcaísmo do verbo Dirimir) diante de atentos estudantes. Sendo o termo “esgrimar” admitido como válido ou até usual, numa perspectiva diacrônica, seria necessário deixar bem claro para o aluno, que não se trata de “erro”, muito menos de “erro gramatical” a não ser que por decreto normativo da mesma gramática, num contexto de reforma ortográfica, o verbo “esgrimar” e sua conjugação sejam considerado extintos. Portanto, antes que se julgue “incorreta” a utilização de “esgrimar” por parte do jornalista, recomendável seria, assim como é recomendável seguir a orientação sincrônica da língua, conceder-lbe o benefício de ter sido induzido ao “erro” pelas amplas possibilidades de construção de seu rico idioma nativo. Mauro de Miranda (mauromiranda@trt16.jus.br)
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Caro Mauro,
Muito obrigada por expressar sua opinião. De minha parte, gostaria de esclarecer um ponto. Essa questão não é objeto de reforma ortográfica. Os lexicógrafos, com base em pesquisas amplas e profundas, indicam nos dicionários que um termo é de uso antigo ou obsoleto. Não se trata de “decretar” uma proibição de uso, mas de reconhecer a ausência de uso. Termos arcaicos não são uma “opção” de uso corrente. Por isso mesmo, não posso “deixar bem claro que não se trata de erro, muito menos de erro gramatical”. Essa seria, a meu ver, uma simplificação da questão, que, se levada às últimas consequências, me obrigaria a dizer que tudo sempre está certo e adequado dadas “as amplas possibilidades do idioma”. As possibilidades são amplas mesmo, mas cada coisa em seu lugar. Abraços,
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