GRAMATICAIS. De uso muito comum, a sequência “deixar claro” pode até parecer uma expressão fixa, mas isso é mera impressão. Essa falsa percepção frequentemente leva a deslizes de concordância, como o que se observa, por exemplo, no fragmento a seguir, adaptado de uma publicação:
Em discursos e entrevistas nos últimos meses, Lula tem deixado claro os problemas que, em sua visão, existem nas mudanças da legislação trabalhista de 2017.
Nessa construção, o adjetivo “claro” ocupa a posição de predicativo do objeto, isto é, exprime um atributo que, em dada circunstância, é atribuído ao “objeto” pelo “sujeito”. Trocando em miúdos, Lula (sujeito de “deixar”) deixa alguma coisa (objeto direto: “os problemas”) clara. O adjetivo “claro” deve concordar em gênero e número com o termo a que se refere. Que exatamente Lula tem deixado claro? Resposta: “os problemas”. Diremos, então, que Lula tem deixado claros os problemas.
É importante lembrar que o adjetivo “claro” da construção “deixar claro” deve concordar com aquilo que alguém esclarece. Caso esse objeto seja uma oração, o adjetivo, aí sim, ficará invariável. É o que ocorre quando se usa a conjunção “que” logo depois da expressão: Lula tem deixado claro que a reforma trabalhista tem problemas.
Finalmente, compare as duas construções:
- Lula tem deixado claros os problemas da reforma trabalhista.
- Lula tem deixado claro que a reforma trabalhista tem problemas.
Em (a), afirma-se que Lula explicita quais são os problemas da reforma trabalhista; em (b), afirma-se que Lula reconhece a existência de problemas na reforma trabalhista. A concordância do adjetivo com o objeto contribui para o pleno entendimento da ideia em questão.