‘Vale a pena’ ou ‘vale à pena’?

GRAMATICAIS. Eis uma questão recorrente quando o assunto é a crase. Muita gente tem a impressão de estar diante uma expressão fixa e, em razão disso, acaba craseando o “a” sem analisar a sintaxe da construção. Logo no início do ano, passadas as festas e a tradicional comilança, constumam surgir na imprensa matérias sobre dietas ou exercícios para compensar os excessos. Uma delas tinha a seguinte chamada:

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Afinal, ocorre ou não crase nesse caso? A resposta simples é não, mas vamos entender por quê. A crase, como sabemos, é a fusão de dois “aa” – em geral, o primeiro é uma preposição “a” e o segundo é um artigo feminino. É por isso que, em muitos casos, com a substituição do termo feminino por um termo masculino, conseguimos perceber com clareza se existe um “a” ou dois “aa”. Esse artifício funciona em grande parte das situações, mas não em todas, portanto o ideal é entender a estrutura sintática em questão.

Na construção “valer a pena”, “pena” tem o sentido de sofrimento ou mesmo sacrifício, embora o uso popular tenha amenizado esse significado. Não nos deixa mentir um programa de televisão intitulado “Vale a pena ver de novo”, em que “vale a pena” não parece acionar a ideia de sacrifício, a menos que por obra de ironia. Na prática, usamos “vale a pena” para incentivar alguém a fazer alguma coisa.

Ainda assim, podemos trocar “pena” por “sacrifício” para verificar a ocorrência ao não de crase. Diríamos simplesmente “vale o sacrifício”, ou seja, uma coisa vale outra. Por exemplo, posso afirmar que um colar vale uma pequena fortuna ou que os passos extras valem o sacrifício – ou valem a pena. Não ocorreu a crase em “valer a pena” porque o verbo “valer” não exige a preposição “a”. O “a” de “valer a pena” é um artigo definido feminino, como o “o” de “valer o sacrifício” é um artigo definido masculino. Quando o “a” é craseado, a substituição da palavra feminina pela masculina faz aparecer a combinação “ao”: Foi à escola/ Foi ao colégio. É simples, não?

No caso de “vale a pena ver de novo”, o sujeito do verbo “valer” é a oração “ver de novo”. Isso quer dizer que “ver de novo” é algo que “vale a pena”. Para escrever corretamente, é importante saber identificar o sujeito e o predicado.

E agora uma observação sobre outra expressão usada na chamada jornalística: é correto dizer que “uma pessoa está acima do peso” ? Na linguagem informal, essa é uma construção válida, de largo uso no português do Brasil, portanto é natural que a imprensa faça uso dela. Em textos mais formais, porém, é importante garantir a precisão. Assim, poderíamos dizer, por exemplo, que a pessoa tem peso acima do ideal. Afinal, é o peso da pessoa que está acima de determinado padrão considerado ideal, certo?  

Sugestão:

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Publicado por Thais Nicoleti

Thaís Nicoleti é formada em português e linguística pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e licenciada pela Faculdade de Educação da mesma universidade.

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