Morando com a enfermeira

NA IMPRENSA. A língua, como sabemos, é cheia de sutilezas, nem sempre explicáveis pelas categorias lógico-gramaticais. Há mais mistérios entre o céu e a terra… e muitos deles estão ligados ao uso, que cria uma expectativa de sentido. Vejamos um curioso título de recente matéria jornalística:

Phil Collins afirma estar ‘totalmente recuperado’ e morando com enfermeira

Bem, aparentemente o músico teve alguns problemas de saúde e, recuperado, resolveu morar com a enfermeira. Diga o leitor como interpretou esse título: Phil Collins apaixonou-se pela enfermeira e, depois de recuperado, decidiu viver com ela? Ou terá decidido morar na casa da enfermeira? Ou ambas as coisas?

O mistério termina quando lemos a mesma notícia dada por outro veículo sob o seguinte título:

Após cinco cirurgias, Phil Collins conta com enfermeira 24h

A segunda opção vem seguida do seguinte trecho:

Em meio a problemas de saúde, Phil Collins revelou que conta com a ajuda de uma enfermeira residente, em regime de 24 horas por dia. Às vésperas de completar 75 anos, o astro britânico, ex-vocalista do Genesis, afirmou em entrevista à BBC que o cuidado diário é necessário porque precisa garantir a administração dos medicamentos corretamente, além de precisar, em certa medida, de auxílio para andar após a realização de cinco cirurgias no joelho. ‘Consigo andar, ainda que com ajuda’, afirmou Phil. ‘Tenho uma enfermeira morando comigo 24 horas por dia para me ajudar com isso’, disse, citando o uso dos remédios.”

Ficamos sabendo, portanto, que o músico contratou uma enfermeira para cuidar dele durante as 24 horas do dia, o que requer que ela more na casa dele. Vale notar a frase dele: “Tenho uma enferemeira morando comigo”. O redator do primeiro título inverteu as posições: Phil Collins está morando com a enfermeira.

Afinal, faz diferença x morar com y ou y morar com x? À primeira vista, pode parecer que não, mas vejamos exemplos do dia a dia. Quando alguém diz que fulano tem 40 anos e mora com a mãe, entendemos que o filho ainda não saiu da casa da mãe, certo? Se, em outra situação, dizemos que o rapaz se casou e sua mãe mora com ele, agora ele é o dono da casa. Então pode, sim, fazer diferença o modo de construir a frase.

Além disso, “morar com alguém”, a depender do contexto, pode evocar uma relação de casal não formalizada pelo casamento, mas equivalente a ele. Daí a possibilidade de pensarmos que Phil Collins estava “morando com a enfermeira” numa relação desse tipo.

Segundo a inteligência artificial do Google, “morar com uma enfermeira envolve adaptar-se a turnos longos, noites em claro e uma rotina flexível, mas traz benefícios como cuidados de saúde imediatos, alta higiene doméstica e compreensão mútua. É uma vida de parceria, exigindo paciência com turnos de trabalho, mas que oferece suporte emocional e prático“.

É interessante notar como a IA, que é treinada na língua portuguesa, entende que quem mora com a enfermeira é que tem de se adaptar à vida dela. Então, meus amigos, Phil Collins não está morando com a enfermeira. Ela é que está morando na casa dele porque foi contratada para cuidar dele o dia todo.

E não vale dizer que fez de propósito para criar ambiguidade e atrair mais leitores, porque isso é conversa mole. Que um site de fofocas use tal “estratagema”, vá lá, mas a grande imprensa ainda tem compromisso com a informação.

Publicado por Thais Nicoleti

Thaís Nicoleti é formada em português e linguística pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e licenciada pela Faculdade de Educação da mesma universidade.

Deixe um comentário