GRAMATICAIS/REFLEXÕES. Hoje, no Correio Braziliense, o advogado Welber Barral publicou um texto em que revela vir observando o uso da forma “houveram” onde se espera “houve” em todos os estratos sociais. Indo direto ao ponto, o erro de concordância, antes associado à falta de escolaridade, hoje assume ares de “evolução da língua”. Barral naturalmente se sente desconfortável em corrigir seus clientes endinheirados, mas registrou sua preocupação no artigo de jornal.
É interessante observar como a visão da linguística de que não existem erros gramaticais, mas apenas desvios de uma norma estabelecida pela “elite”, ganhou as páginas de jornais nos últimos anos, substituindo as antigas colunas de orientação gramatical, uma tradição da imprensa. Os mais antigos se lembrarão das “Questões Vernáculas”, de Napoleão Mendes de Almeida, no Estadão, que continuavam o trabalho de autores de gerações anteriores. Mesmo com linguagem e pontos de vista mais modernos que os de Napoleão, gramáticos tiveram espaço na imprensa durante quase duas décadas do nosso século XXI.
Hoje, de modo geral, quem escreve sobre língua portuguesa nos grandes jornais assume posicionamento contrário a tudo o que possa parecer uma aula de gramática do português, fazendo, a meu ver, falso juízo dos gramáticos, tidos como ditadores de regras, “sabichões”, conservadores, reacionários ou coisa pior.
O nó da questão está no fato de que a linguística, por ser ciência da linguagem, não se propõe a estabelecer usos corretos, mas apenas a descrever e a explicar usos detecados, o que a coloca em posição diversa daquela dos gramáticos, que, como a maior parte dos falantes da língua, não são “cientistas”. Cientistas da linguagem observam a falta de uniformização da língua, sobretudo quando captada em seu uso espontâneo, o que é natural. Seu objeto de estudo é exatamente o que foge à regra. Até aí, tudo bem.
O que não parece bom é expulsar do debate os gramáticos, cujo ponto de vista é um pouco diferente. Enquanto linguistas enfocam as diferenças (ou a “diversidade”), gramáticos enfocam as “permanências” (ou a unidade). A diversidade é típica do registro oral espontâneo; o registro formal, escrito ou oral, busca as estruturas permanentes, que dão durabilidade ao texto. São as permanências que nos permitem ler, nos dias atuais, Camões ou o padre Antônio Vieira, entre muitos outros autores do passado. O próprio Machado de Assis, nossa referência literária, escreveu no século XIX.
As permanências também são o que nos permite a comunicação em um país imenso como o nosso, repleto de usos diversos, e com falantes do português de outros países. Penso que a consciência da diversidade e do processo natural (e lento) de mudança linguística não deva inibir o ensino da gramática nas escolas. É claro que as aulas podem e devem modernizar-se, mas para avançar no conhecimento, nunca para associá-lo a algo negativo.
O verbo “haver”, quando empregado no sentido de “existir” ou de “ocorrer”, é o que chamamos verbo impessoal, sem sujeito. É por isso que se mantém na terceira pessoa do singular. O advogado Barral citou vários casos de uso incorreto, como “houveram acidentes” (dito por apresentador de notícias) ou “houveram alinhamentos estratégicos” (dito por CEO de empresa). Nessas situações, emprega-se “houve”, não “houveram”.
A forma “houveram” existe, mas com sentidos diferentes. Em “os alunos houveram-se bem nas provas”, o verbo “haver” se conjuga, pois tem sujeito (“os alunos”), mas seu significado nessa frase é o mesmo de “sair-se”, “dar conta” de uma tarefa. Em “eles se houveram com elegância”, o verbo assume o sentido de “comportar-se”. Essas construções são pouco usadas no português moderno do Brasil, mas podem ser encontradas nas páginas de livros mais antigos, o que já é um bom motivo para conhecê-las.
Como verbo auxiliar, “haver” tem sujeito, portanto sofre a flexão de pessoa gramatical, exatamente como ocorre com o verbo “ter” em situações semelhantes (“Eles haviam chegado cedo” ou “Eles tinham chegado cedo”). Em seu uso mais corriqueiro, porém, o verbo “haver” é geralmente impessoal, portanto sem flexão de pessoa gramatical (“Houve grandes perdas”, “Havia poucos alunos na sala”, “Certamente haverá discussões sobre o tema”, “Haveria outras formas de dizer isso?”, “Ainda há dúvidas sobre a questão”).
É comum explicar o erro de flexionar indevidamente o verbo “haver” como um caso de hipercorreção (ou ultracorreção), fenômeno caracterizado pela pseudocorreção de uma estrutura correta, porém de comportamento excepcional, por associação às estruturas regulares. O falante faz isso por receio de cometer um erro. Diga-se de passagem que usar “menas” (forma inexistente na língua) antes de palavras femininas é também um caso de hipercorreção, o mesmo fenômeno que explica o “houveram” quando o verbo tem o sentido de existir ou ocorrer.
Finalmente, o que parece necessário discutir é a ampliação desses casos de insegurança gramatical (ou de conhecimento precário do idioma) entre pessoas escolarizadas. Antes, os linguistas, a pretexto de defender do preconceito as pessoas que estavam excluídas dos bancos escolares, condenavam as lições tradicionais de português empunhando uma bandeira de defesa dos oprimidos. Até aí, temos de concordar com eles, afinal ninguém deveria sofrer qualque tipo de preconceito por seu modo de se expressar. A solução para o problema, no entanto, parece ter sido abolir o ensino das regras para que a língua evolua sem a interferência dos gramáticos, apenas no ritmo (democrático, é verdade) das redes sociais, em que cada um escreve do seu jeito peculiar e, afinal, todos se entendem (e se desentendem).
O resultado de abolir as aulas de gramática parece ser a precarização do conhecimento da própria língua. Alguns dirão que, se passarmos a usar “houveram” no lugar de “houve”, as coisas ficarão mais simples. Ora, por que não? O problema é sempre mais complexo do que parece à primeira vista. Se assim for, ou deixam de existir todas as regras e assumimos o caos como nova ordem, ou os “novos sabichões” deverão dizer quais são as “novas regras”. O advogado Barral, em seu texto, diz o seguinte: “O colapso das civilizações raramente começa de forma dramática. Roma não caiu num único dia. O Império Britânico não se dissolveu rapidamente. A decadência chega devagar, infiltra-se nos detalhes, corrói discretamente os pilares da normalidade”.
Professora Thais
Parabéns pela “reflexão” de hoje. Questão com a qual me defronto com frequência no meu dia a dia profissional.
Abraço,
Liana Amaral
lianadoamaral@gmail.com
11 997715483
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