“Previsto para ocorrer”: sim ou não?

GRAMATICAIS. Quem tem o hábito de ler jornais certamente já encontrou a construção “previsto para” seguida de um verbo no infinitivo: o espetáculo está previsto para estrear no próximo sábado, a obra está prevista para ser entregue no fim do ano etc.

Ao que tudo indica, essa moda linguística começou quando os jornais se deram conta de que não podiam afirmar com certeza que algo seria realizado em alguma data sem que, de alguma forma, se responsabilizassem pelo cumprimento da promessa alheia.

Imaginemos que um jornal publique que um espetáculo vai estrear no próximo sábado e que o espetáculo não estreie. Em tese, bastaria noticiar o motivo do cancelamento, mas, caso tenha havido um erro de informação da assessoria ou algo do gênero, como fica o jornal? Vai parecer que apurou mal a notícia.

Diante de um fato razoavelmente prosaico, a solução era encontrar uma “fórmula” que isentasse o jornal desse tipo de responsabilidade. Digamos então que há previsão de estreia, que isso está previsto etc. Até aí, tudo bem. É perfeitamente possível dizer que a estreia do espetáculo está prevista para o próximo sábado. Não é isso, porém, o que costumamos ver na imprensa.

Em vez de dizer que “a estreia do espetáculo” está prevista, o mais comum é que se diga que “o espetáculo está previsto”. O que, de fato, está previsto, porém, não é o espetáculo em si, mas a sua estreia, o seu término ou qualquer outra ação relacionada a ele, que deveria aparecer na forma nominal (o substantivo “estreia” no lugar do verbo “estrear”, o substantivo “término” no lugar do verbo “terminar” e assim por diante). Nessa construção, típica da imprensa, a ação verbal é inserida na forma de um infinitivo preso ao particípio “previsto” por meio da preposição “para” (“previsto para estrear”, “previsto para terminar”).

O verbo “prever” rege, sim, a preposição “para”, que, no entanto, introduz um complemento de natureza temporal (previsto para amanhã, previsto para o próximo sábado). Em vez de “o espetáculo está previsto para terminar às 23 horas”, melhor me parece “o término do espetáculo está previsto para as 23 horas”, porque o sujeito da oração (o término do espetáculo) anuncia o assunto de que tratará o predicado (está previsto para as 23 horas). Muito mais simples para quem lê, além de ser mais preciso. O mesmo vale para o outro exemplo: em vez de dizer que a obra está prevista para ser entregue no fim do ano, melhor dizer que a entrega da obra está prevista para o fim do ano. Certo?

A situação parece ainda pior quando o jornalista usa o verbo “ocorrer” depois de “previsto”, como lido recentemente em reportagem sobre o bloqueio do aplicativo Telegram pelo STF: “O bloqueio da plataforma não chegou a entrar em vigor – ele estava previsto para ocorrer nesta segunda, 21”. Note que, nesse caso, o sujeito já era o substantivo abstrato “bloqueio” (ação de bloquear), portanto bastava dizer que ele estava previsto para esta segunda-feira, 21, certo?

E só mais uma coisinha: a própria ideia de “ocorrer” (ou de “acontecer”, de “sobrevir”) parece rechaçar a noção de previsão, pois está ligada àquilo que sucede sem aviso. Não é à toa que “ocorrer” é usado também no sentido de “vir à memória”, como um ato involuntário, que sobrevém (Ocorreu-lhe na hora um pensamento incômodo). “Previsto para ocorrer”, portanto, é duplamente estranho à nossa língua, tanto pela sintaxe como pela semântica.

Tempo verbal: aeronave voava ou voaria?

GRAMATICAIS. Uma recente notícia de jornal trazia um breve histórico de acidentes aéreos. Em determinado ponto, o redator afirmava o seguinte: “[…] um avião China Southern 737-300, que voava de Guangzhou a Guilin, caiu na aterrissagem […]”. Até aí, tudo bem, mas, logo em seguida, talvez aproveitando a mesma estrutura redacional, escreveu isto: “Em 1994, um Tupolev Tu-154 da China Northwest Airlines voava de Xian para Guangzhou, mas caiu logo após a decolagem”.

Será que o tempo verbal que valia para uma aeronave que caiu na aterrissagem também vale para aquela que caiu “logo após a decolagem”?  Vejamos. Daquela que caiu em momento próximo ao pouso é correto afirmar que voava de um ponto a outro, mas da aeronave que caiu assim que decolou pode-se dizer que mal chegou a iniciar o trajeto.

O que está em jogo nesse caso é o emprego dos tempos verbais. O pretérito imperfeito (“voava”), além de situar a ação no passado, dá a ela um aspecto durativo, de ação contínua que se desenrola até o momento de uma interrupção. Por exemplo: Ela tocava uma linda melodia no piano quando alguém bateu na porta. A ação contínua de tocar uma melodia é interrompida por outra ação (a de bater na porta). É por isso que a forma “voava” está corretamente empregada na primeira frase: um avião, que voava de Guangzhou a Guilin, caiu na aterrissagem. Nesse caso, a queda interrompeu o voo.

O pretérito imperfeito também é o tempo verbal usado para informar algo que se fazia com frequência em um tempo passado. Por exemplo: Naquela época, ele praticava jiu-jítsu. Como se vê, o imperfeito descreve uma ação não terminada, o que, de saída, o distingue do pretérito perfeito, que é o tempo das ações completas (ele fez, ela disse, o avião caiu etc.).

Se o avião que caiu pouco depois da decolagem não estava, de fato, voando de Xian para Guangzhou, porque, embora tenha dado início ao trajeto, a ação não chegou a se estabelecer de modo contínuo, qual é o tempo verbal adequado?

O ideal seria o emprego do futuro do pretérito, que indica uma ação que se dará no futuro a depender de alguma condição (se não caísse na decolagem, o avião voaria de uma cidade a outra). Vejamos: Em 1994, um Tupolev Tu-154 da China Northwest Airlines voaria de Xian para Guangzhou, mas caiu logo após a decolagem.

É certo que há outras formas de refazer a frase, mas aqui optei por manter a estrutura original da formulação, mostrando uma sutileza semântica relacionada aos tempos verbais. O emprego dos tempos em português é um tema vasto porque há uma série de nuances de significado embutidas em cada um deles. Voltaremos ao assunto, portanto.

O gênero de “gigante”

GRAMATICAIS. Leitores regulares de jornais certamente estão acostumados a encontrar o substantivo “gigante” na designação de uma grande empresa, em geral a mais importante ou uma das maiores de um ramo de atividades.

Alguns exemplos, extraídos de várias publicações, ilustram esse uso: “a gigante da computação em nuvem” (Amazon), “a gigante de buscas” (Google), “a gigante de tecnologia e meios de pagamento” (Mastercard), “a gigante russa de gás” (Gazprom), “a gigante do alumínio” (Rusal), “a gigante do comércio eletrônico” (Amazon), “a gigante chinesa do setor imobiliário” (Evergrande), “a gigante americana Apple”, “a gigante do streaming” (Netflix), “a gigante russa dos diamantes” (Alrosa), “a gigante petrolífera Rosneft”, “a gigante de tecnologia Meta”, “a gigante brasileira de petróleo” (Petrobras)…

A insistência no uso da construção sugere que estejamos diante de um modismo, como já o foram, em outros tempos, “a novela” ou o “fantasma” disto ou daquilo. Quem ainda se lembra da “novela da reforma da Previdência” ou do “fantasma da inflação”?

Um parêntesis: modismos e lugares-comuns são comuns nos textos da imprensa, em geral produzidos em ritmo acelerado. Embora pareçam simples falta de criatividade, são eficazes do ponto de vista da comunicação rápida exatamente por serem repetitivos e acionarem de imediato uma ideia conhecida por muita gente. Esse é um tema que deixo para outro dia. Voltemos ao “gigante”.

Quem for observador terá notado o artigo “a” que antecedeu a palavra “gigante” em todos os exemplos arrolados acima. Há também exemplos em que “gigante” é antecedido de “o”: “o gigante chinês do e-commerce” (Ali Express), “o gigante americano do streaming” (Netflix), “o gigante asiático” (China), “o gigante da entrega de comida” (iFood), “o gigante chinês das redes sociais” (TikTok) etc. Afinal, gigante é um substantivo masculino, feminino ou comum de dois gêneros?

Acertou quem respondeu “masculino”. Dizemos, corretamente, “o gigante”. Por que, então, tantas vezes o termo tem aparecido no feminino? É provável que a escolha decorra de associação à ideia de empresa (empresa gigante). O termo, quando usado como adjetivo, pode caracterizar seres masculinos ou femininos (prédio gigante/ escola gigante). Nesse sentido, é sinônimo de “gigantesco” ou “gigantesca”. O substantivo composto “roda-gigante”, por exemplo, é formado de dois elementos que, separadamente, são substantivo (roda) e adjetivo (gigante); nesse caso, o gênero do composto é dado pelo substantivo, que é feminino (uma roda-gigante).

Como substantivo, no entanto, “gigante” é masculino, portanto deve ser antecedido do artigo “o”. Embora seja pouco usado hoje, o substantivo feminino “giganta” existe. Importa notar que, quando dizemos “prédio gigante”, o substantivo “prédio” é que é determinado por artigo (o prédio gigante, um prédio gigante) e, quando dizemos “escola gigante”, o substantivo “escola” é que é determinado por artigo (a escola gigante, uma escola gigante). O mesmo vale, por exemplo, para a construção “a gigante Alcione emocionou o público”, em que o artigo feminino determina o substantivo “Alcione” e “gigante” é, naturalmente, um adjetivo.

Se for substantivo, “gigante” será masculino, portanto o gigante da tecnologia, o gigante do petróleo, o gigante do streaming etc. Os jornalistas, que estão sempre a usar o substantivo “gigante”, devem ficar atentos ao gênero do substantivo.

Qual é o plural de “pãozinho”?

GRAMATICAIS. O plural dos diminutivos costuma ser objeto de dúvida entre aqueles que escrevem no registro formal da língua portuguesa. Isso porque nem sempre basta acrescentar o “-s” de plural ao substantivo que está nesse grau. Há casos em que se faz uma espécie de dupla flexão. Qual é o plural de “pãozinho”? Se você respondeu “pãezinhos”, acertou. Vamos ver por que não se diz “pãozinhos”.

Bem, o primeiro ponto a observar é que, se o sufixo de diminutivo for a forma “-zinho” (com “z”), o plural não se faz apenas com o acréscimo de um “s”. Tomemos a palavra “favorzinho”, muito comum no cotidiano. Primeiro, nós a fazemos voltar ao seu grau normal (“favor” em vez de “favorzinho”) e depois a flexionamos (obtendo, assim, a forma “favores”). Em seguida, retiramos o “s” de “favores” (“favore-”), acrescentamos o sufixo ”-zinho”, de diminutivo (“favorezinho-”), e só então devolvemos o “s” retirado (“favorezinhos”).

Convém lembrar que o sufixo “-inho”, que é uma forma variante de “-zinho”, não leva a essa dupla flexão, pois aglutina-se ao radical, de modo que o acréscimo do “-s” final é suficiente. É o que ocorre, por exemplo, com a forma “menininho” (pl. “menininhos”). Existe também a forma “meninozinho”, com o sufixo “-zinho”, que não se aglutina, cujo plural é “meninozinhos”.

É regular na língua que seja usado “-zinho” em vez de “-inho” nos diminutivos de termos que, no grau normal, terminam em vogal tônica (avó – avozinha, café – cafezinho, irmã – irmãzinha), em ditongo (chapéu – chapeuzinho, degrau – degrauzinho, irmão – irmãozinho, leão – leãozinho, pão – pãozinho) e em sílaba tônica fechada por consoante (armazém – armazenzinho, colar – colarzinho etc.). Nas oxítonas terminadas em “-l”, pelo menos no Brasil, onde o “l” nessa posição tem som de “u”, prevalece o sufixo “-zinho” (papel – papelzinho, pastel – pastelzinho etc.).  Em Portugal, por exemplo, ocorre também a forma “papelinho”. 

Na linguagem familiar, é comum o emprego de “-inho/ -inha”, independentemente da terminação da palavra. As formas “mainha” e “painho”, por exemplo, ouvidas no lugar de “mãezinha” e “paizinho”, são frequentes no registro informal em algumas regiões do Brasil. Por outro lado, a forma com “z” é expressiva em diversos contextos, como se pode observar nesta passagem de Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa:

Pois essezinho, essezim, desde que algum entendimento alumiou nele, feito mostrou o que é: pedido madrasto, azedo queimador, gostoso de ruim de dentro do fundo das espécies de sua natureza.

Pareceu complicado? Na verdade, merecem atenção as palavras cujo plural no grau normal não se faz apenas com o “s”. São essas que, no diminutivo, têm a dupla flexão de número. É o caso de “barzinho” (bar – bares), cujo plural é “barezinhos”, o de “favorzinho” (favor – favores), cujo plural é “favorezinhos”, e, naturalmente, o de “pãozinho” (pão – pães), cujo plural é “pãezinhos”.

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Newsletter: lições de português da profª. Thaís Nicoleti

O Português Claro agora tem uma newsletter. Cada edição traz três lições rápidas de português que podem ajudar a resolver dúvidas do cotidiano, comuns aos escribas de todas as latitudes desta nossa língua portuguesa. O modelo “newsletter” permite que as publicações cheguem diretamente à caixa de entrada de seu e-mail. Como o blog tem conteúdo aberto a todos os leitores e não contamos com nenhum tipo de patrocínio ou apoio financeiro, a newsletter será enviada como conteúdo pago a quem puder contribuir com o projeto. Abrace essa ideia e ajude a divulgá-la. Custa pouco (R$ 15 por mês, duas edições por semana). Se não puder contribuir, siga o blog e tenha acesso gratuito às publicações regulares.

Na edição de hoje:

(1) como fazer o plural dos diminutivos (barzinho, cãozinho, pastelzinho);

(2) como usar bem o numeral ambos, que só vale para dois elementos que não se opõem;

(3) um caso de dupla negação que inverte o sentido pretendido.

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Pronúncia e preconceito

PARA ALÉM DA GRAMÁTICA. Não é novidade que a língua tem diferentes registros, sendo um deles o chamado “culto”, ou seja, aquele aprendido nas escolas e na tradição literária, e outros os adquiridos apenas pela tradição oral da região ou da comunidade em que vive o falante. Registros são, grosso modo, diferentes formas de usar a mesma língua. Diga-se, ainda, que uma mesma pessoa pode fazer uso de diferentes registros da língua, a depender da situação de comunicação.

Certos registros, de fato, indicam baixa escolaridade, o que, no entanto, nada tem que ver com a capacidade de raciocínio de quem neles se expressa. A norma culta, em grande medida, é feita de convenções – e mesmo pessoas escolarizadas por vezes as desconhecem. No Brasil, aliás, isso é muito frequente, motivo pelo qual (se não por outro melhor) seria sensato evitar o “bullying” com quem aparentemente se expressa do modo diverso do seu.

Alguns traços de registros orais da língua são rapidamente captados pelas camadas mais escolarizadas da sociedade. Dessa percepção pode resultar uma de duas posturas: respeito pela forma de se expressar da outra pessoa ou preconceito social.

Recentemente, o Twitter foi tomado por uma questão linguística que traz consigo o gérmen do preconceito social. Dizia-se que, em sua última fala (proferida há uma semana), o ex-presidente Lula – que, diga-se, capturou a atenção do país inteiro e criou rebuliço nas peças do tabuleiro da política – pronunciou a palavra “advogado” como se o “d” tivesse um apoio vocálico (“adevogado”), pronúncia, aliás, muito comum até mesmo entre advogados.

Cada um expresse o que quiser, as redes sociais estão aí para isso mesmo, mas muita gente que fez chacota com a pronúncia “adevogado” (no lugar de “advogado”) anda por aí dizendo “piscicólogo” (em vez de “psicólogo”), “pissiquiatra” (em vez de “psiquiatra”), “piscicologia” (em vez de “psicologia”), “peneu” (em vez de “pneu”), “peneumonia” (em vez de “pneumonia”), “subi-humano” (em vez de “sub-humano”/ “subumano”) etc. Na prática, a questão é exatamente a mesma: a interpolação de uma vogal que desfaz um encontro consonantal, fenômeno fonético que atende pelo nome de “suarabácti” (termo de origem sânscrita).

Esse apoio vocálico facilita a pronúncia em português e, algumas vezes, passa a integrar a grafia oficial de uma palavra. Muita gente desconhece o que seja um “cáften”, mas sabe muito bem o que é um “cafetão”. Esta última forma é uma alteração da primeira, que já ganhou lugar nos dicionários. O feminino culto “caftina” é quase sempre substituído por “cafetina”, com apoio vocálico. O mesmo vale para o verbo “caftinar” (culto), que vem dando lugar a “cafetinar”.

Os termos iniciados por “psi-” não devem confundir-se com aqueles iniciados por “pis-”. Observe a diferença de pronúncia (e de significado) entre “psicologia” (que vem de “psique”, a mente humana) e “piscicultura” (que é a criação de “peixes”) – “piscina”, aliás, na origem, era um viveiro de peixes, daí a sua grafia (e pronúncia).  

O coro dos indignados com o “adevogado” de Lula deve tomar cuidado com a conjugação do verbo “indignar-se”: como é mesmo que se lê algo como “Não se indigne à toa!”? Quem disser “indiguine” estará fazendo o mesmo que aqueles que dizem “adevogado”, “piscicólogo” ou… “ismartifone”.

Enfim, o próprio Lula, em seu discurso, fez referência, aliás muito bem-humorada, aos inúmeros professores de português que apareceram na sua trajetória, ou seja, aquelas pessoas que corrigiam seu uso de “menas” no lugar de “menos”. Lula disse que não sabia, que dizia “menas laranja” e o pessoal na porta da fábrica entendia. Mal sabia ele que, enquanto discursava, essas mesmas pessoas estavam nas redes sociais procurando uma forma de extravasar seu preconceito contra a origem social dele. O perigo é agir feito o macaco que se senta no próprio rabo e se põe a criticar o rabo alheio.

Completa e disponível online, nova gramática normativa chega aos leitores

BIBLIOTECA. Nada mais alvissareiro que iniciar a seção Biblioteca do blog Português Claro com a indicação da Gramática Normativa da Língua Portuguesa, da dupla Marcelo Moraes Caetano e Alexandre Chini, que acaba de ser lançada pela Editora da Ordem dos Advogados do Brasil.

Caetano, professor adjunto da Uerj e membro da Academia Brasileira de Filologia, coleciona títulos e prêmios em sua carreira dedicada ao estudo da língua portuguesa. Chini é pós-graduado em Direito pela Universidade Gama Filho e divide suas atividades entre o magistério e a magistratura, além de ser membro da Academia Fluminense de Letras.

Da junção dessas duas experiências, nasce uma obra de fôlego, que faz jus ao seu subtítulo, “Um guia completo do idioma”. A vasta bibliografia, que, para além de trabalhos específicos sobre língua portuguesa, engloba estudos de linguística, filosofia e argumentação, revela o sólido embasamento teórico da obra. A abrangência dos temas e a profusão de exemplos, extraídos não só dos cânones literários como também de textos jornalísticos e científicos, não deixam dúvidas de que a língua portuguesa está em boas mãos.

As subdivisões do texto permitem que facilmente se encontrem pontos específicos, tornando simples a tarefa do consulente que busca o esclarecimento de uma dúvida particular. Embora uma gramática de mais de 700 páginas normalmente seja uma obra de consulta, o estilo fluido dos autores é um convite à sua leitura por completo.

Aos estudantes uma ótima notícia: o livro contém uma seção de exercícios gabaritados, extraídos de vestibulares e outros concursos, por meio dos quais é possível testar os próprios conhecimentos. E mais: a obra está inteiramente disponível online, sem nenhum custo, no site da OAB (link aqui).

Quem quiser completar a biblioteca poderá adquirir também outro volume recentemente publicado em conjunto pelos dois autores: Argumentação jurídica: indo além das palavras. Nessa obra, também disponível online gratuitamente (aqui), Caetano e Chini dedicam-se à tarefa de ensinar a construir textos, o que passa necessariamente pela organização do pensamento e pela elaboração de argumentos. Com muito didatismo, os autores revisitam a retórica aristotélica e chegam aos mais modernos estudos da área, da nova retórica às contribuições da semântica e da análise do discurso.

INDICAÇÕES DE HOJE

CHINI, Alexandre; CAETANO, Marcelo Moraes. Gramática normativa da língua portuguesa: um guia completo do idioma. Brasília: Conselho Federal OAB, 2020.

CHINI, Alexandre; CAETANO, Marcelo Moraes. Argumentação jurídica: indo além das palavras. Brasília: Edição do Autor, 2020.

Concordância com porcentagens

GRAMATICAIS. DEU NA MÍDIA. Quando o sujeito de uma oração é uma porcentagem, como se faz a concordância verbal? Vale lembrar que esse tipo de construção é cada vez mais frequente. Próprio dos textos científicos, migrou para a imprensa, que diariamente reproduz pesquisas e resultados estatísticos.

Quem consultar gramáticas tradicionais, entretanto, pouco ou nada encontrará sobre o tema. Dito isso, como proceder? É claro que a força do uso é que acaba constituindo a regra, mas, nesse caso, o que vemos é grande oscilação e explicações convincentes para todos os gostos.

Vamos trazer para cá três exemplos extraídos de uma mesma página de jornal. Um dos títulos era este: “Quase 60% dos consumidores têm adiado compras”. Empregou-se, corretamente, a forma acentuada do verbo “ter”, que indica terceira pessoa do plural. Esse caso é o mais simples, pois o núcleo do sujeito (60%) e seu especificador (consumidores) são, ambos, termos que pedem plural.

A dúvida surge quando um dos termos (núcleo ou especificador) está no singular e o outro está no plural. Isso nos leva ao segundo exemplo: “Pouco mais de 50 mil postulantes receberam verbas de seus partidos para o pleito, mas 80% do valor liberado (R$ 646 milhões de R$ 807 milhões) foram destinados a cerca de 4.600 candidaturas”.

O redator fez a concordância com o núcleo (80%), o que levou o verbo para o plural. Não há como condenar essa construção, uma vez que o verbo concorda com o núcleo do sujeito, observada a regra geral de concordância verbal.

É, no entanto, bastante comum – e corroborada por um autor do peso de Evanildo Bechara – a concordância atrativa em situações semelhantes a essa (…mas 80% do valor liberado foi destinado a cerca de 4.600 candidaturas). O verbo se deixa contaminar pelo termo que lhe é mais próximo, o qual, nessas construções, é também aquele que carrega conteúdo nocional.

Acresce-se que a porcentagem é uma abstração, por vezes sentida como um elemento neutro, donde ser muito comum que se diga que “50% da população votou em determinado candidato” ou que “50% das pessoas votaram no candidato”, tomando os termos “população” e “pessoas” como aqueles aos quais se refere o verbo.

O que se pode dizer é que os dois critérios (concordância com o núcleo e concordância com o especificador) são igualmente aceitos na norma-padrão. Uma situação, porém, tende a desafiar o nosso raciocínio. A manchete da Folha de S. Paulo (26 out.2020) servirá de exemplo: “Menos de 1% dos candidatos retêm 80% do fundo eleitoral”.

O redator optou pela forma de terceira pessoa do plural do verbo “reter” (eles retêm), o que nos leva a concluir que ele fez o verbo concordar com o especificador (concordância atrativa). Ainda que tecnicamente correta, a escolha parece ter sido burocrática. Vejamos por quê.

Vale, de saída, observar que se optou pelo plural no único caso em que a maioria converge para o singular, ou seja, aquele que envolve 1%.

Além dessa convergência para o singular em razão de se tratar da unidade na posição de núcleo, concorreria para a opção pelo singular o fato de o verbo da frase ser um derivado de “ter”, que, nas terceiras pessoas, apresenta formas idênticas quanto à pronúncia, apenas distintas por um acento diferencial (retém/ retêm).

Note-se que a contaminação do verbo pela proximidade com o plural se manifesta na pronúncia e desta migra para a grafia. No caso de formas indistintas quanto à pronúncia, claro está que não se verifica contaminação. O somatório das duas situações faria a concordância convergir naturalmente para o singular: Menos de 1% dos candidatos retém 80% do fundo eleitoral.

Segundo Evanildo Bechara, nos casos em que o núcleo é 1%, vale o singular: Menos de 1% dos candidatos do partido conseguiu eleger-se. Trata-se, portanto, de um caso especial. Vale ainda lembrar que a concordância atrativa, sendo motivada pela realização oral da língua, esmorece diante de formas verbais que não se distinguem na pronúncia, sendo apenas diferenciadas na escrita por uma convenção gráfica.

Sempre é bom lembrar que a língua não é uma ciência exata, tampouco um corpo de regras anteriores à prática.

Dividir “por dois” e dividir “em dois”

GRAMATICAIS. DEU NA MÍDIA. Recentemente, em agosto deste ano, a queda de um avião em Istambul criou confusão nas redações de jornais e revistas, que se viram às voltas com uma inusitada questão de concordância. Para uns, o avião partiu-se em dois; para outros, a aeronave partiu-se em duas, mas a maioria parece ter optado por usar o numeral “dois” sem flexão, independentemente do termo anterior, como veremos a seguir.

Na revista Veja, o título foi este: Aeronave se partiu em dois e sofreu muitos danos durante a aterrissagem no Aeroporto Internacional de Karipur; na IstoÉ, foi este: Avião sai da pista e se parte em dois após pouso em Istambul. O jornal NH, de Novo Hamburgo (RS), trouxe a seguinte construção: Redes de TV locais relataram que a fuselagem da aeronave partiu-se em duas (vale notar que o pronome “se” está incorretamente colocado, afinal “relataram que … se partiu).

Mais sensato parece ter sido o texto da agência de notícias AFP, reproduzido como legenda de foto (também na IstoÉ): A fuselagem da aeronave, da companhia privada Pegasus, partiu-se ao meio e pegou fogo depois que o aparelho saiu da pista do aeroporto internacional Sabiha Gökçen.

Caso semelhante a esse surgiu há poucos dias na imprensa também, agora tratando do racha na base do governo: O prefeito desistiu de disputar a reeleição, a base do governo rachou em dois, um primo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) entrou na disputa, e o PT, depois de quatro derrotas seguidas, tenta retomar a prefeitura.

Aparentemente, o que embasa a decisão de manter “dois” invariável é a suposta semelhança com a construção “dividir por dois”, em que “dois” é uma grandeza matemática, um número. Dividir por dois significa dividir em duas partes iguais; dividir em dois, no entanto, não parece ter exatamente o mesmo sentido. Vejamos.

Podemos dividir uma sala em dois ambientes ou mesmo dividir uma turma de alunos em duas turmas de alunos. Neste último caso, sendo uma turma divisível em duas turmas, o numeral faria a flexão deixando subentendido o termo anterior flexionado (turma/ turmas), donde seria possível dizer que se dividiria uma turma de alunos em duas (uma turma em duas turmas).

Uma sala grande pode ser dividida em duas salas (uma de estar e uma de jantar, por exemplo), portanto seria possível dizer que um biombo dividia a sala em duas (duas salas menores). Um vaso que se quebra em mil pedaços (ou inúmeros pedaços), porém, não se divide em “mil vasos”, portanto não dizemos que “o vaso se partiu em mil” – precisamos completar a frase (o vaso partiu-se em mil pedaços, mil fragmentos, mil cacos).

Esse mesmo vaso, se rachado em duas partes, poderia estar “rachado em dois”? Se assim fosse, estaríamos considerando a inusitada possibilidade de um vaso rachado transformar-se em dois vasos (!).  Foi, aliás, o que fizeram os redatores no caso do avião partido em dois ou da aeronave partida em duas (!).

Como se vê, é preciso analisar caso a caso e verificar a coerência semântica da frase final. O problema aparece com verbos desse mesmo campo semântico (dividir, separar, rachar, quebrar, partir-se).

Não convém dizer que o avião se partiu em dois, pois, nesse caso, estamos supondo que se tenha transformado em dois aviões (o mesmo valendo para uma aeronave partir-se em duas). Embora a concordância não nos incomode os ouvidos, a afirmação soa incoerente. Por outro lado, uma sala grande pode dividir-se em duas salas menores, como uma turma pode dividir-se em duas menores.

A solução dada pela agência de notícias AFP (reproduzida em legenda de foto pela IstoÉ) foi, de fato, a melhor: a aeronave partiu-se ao meio. Note que ninguém esperaria em tal contexto que a divisão se desse exatamente ao meio, questão que perde relevância nas circunstâncias, do mesmo modo que ninguém contaria os mil fragmentos do vaso quebrado.

Caso se pretendesse insistir no numeral “dois” ou “duas”, seria necessário usar um substantivo depois dele. Tal qual o vaso que se parte em mil pedaços, o avião se parte em dois pedaços. A omissão desse substantivo levará a que se tome o numeral como ligado retroativamente ao termo anterior (avião partiu-se em dois = avião partiu-se em dois aviões!).  

Veja-se o caso do racha na base do governo. Se dissermos que “a base (se) rachou em duas”, estaremos considerando a formação de duas bases no lugar de uma, o que não parece descrever o que, de fato, acontece. Melhor, portanto, dizer que “a base rachou em dois grupos”, que continuarão sendo a base. Vale notar que, na expressão “dividir por dois”, “dois”, tomado como grandeza matemática, não se submete à concordância (dividir por dois a herança, dividir por dois os bens dos sócios, dividir por dois a fortuna amealhada).

Temos, portanto, que “dividir por dois” é fazer uma operação matemática de divisão em partes iguais, mas “dividir em dois” é fazer que algo passe de um estado (inteiro) a outro (duas metades ou duas partes), caso em que ao numeral caberá adjetivar o substantivo (uma coisa se converte em duas outras): dividiu por dois a herança, dividiu a herança em duas partes iguais.

Assim pode-se dizer que, com a preposição “em”, temos um predicativo (Dividiu a maçã em duas metades; Dividiu a pizza em seis fatias), prevalecendo a ideia de mudança de estado (transformar o inteiro em partes); com a preposição “por” seguida de um numeral, temos a operação matemática (Divida-se o total por dois e chegar-se-á ao resultado); ainda com a preposição “por”, alternando-se com “entre”, temos a ideia de distribuição (Dividiu os bens pelos herdeiros; Dividiu o dinheiro entre os amigos).

Na canção “Sete cidades”, da Legião Urbana (de Marcelo Bonfá, Dado Villa-Lobos e Renato Russo), que você ouve clicando aqui embaixo, observe a construção “me partiu em dois”, por meio da qual o poeta se refere a si mesmo (o amor parte o seu “eu” em dois “eus” menores, um dos quais, a metade ausente, é a pessoa amada, em clara referência ao mito do amor platônico).

Já me acostumei com a tua voz/ Com teu rosto e teu olhar/ Me partiu em dois/ E procuro agora o que é minha metade//

Quando não estás aqui/ Sinto falta de mim mesmo/ E sinto falta do meu corpo junto ao teu//

Meu coração é tão tosco e tão pobre/ Não sabe ainda os caminhos do mundo/ Quando não estás aqui/ Tenho medo de mim mesmo/ E sinto falta do teu corpo junto ao meu//

Vem depressa pra mim/ Que eu não sei esperar/ Já fizemos promessas demais/ E já me acostumei com a tua voz/ Quando estou contigo estou em paz//

Quando não estás aqui/ Meu espírito se perde/ Voa longe.

Crase: “aquele” ou “àquele”?

QUESTÃO DO LEITOR. GRAMATICAIS. Nosso leitor Wilson Lima de Oliveira, que é técnico judiciário na Vara da Família, Infância e Juventude de Balneário Camboriú, em Santa Catarina, traz uma interessante questão relacionada à ocorrência ou não de crase no pronome demonstrativo “aquele”.

Vejamos o fragmento enviado por ele:

“A violação ao dever de fidelidade não gera, por si só, dano moral. Àquele que reclama compensação pecuniária pelo dano moral cumpre não só provar a infidelidade, mas também a ocorrência de uma conduta pública indiscreta”.

Em primeiro lugar, convém lembrar que a crase (fusão de dois “aa”), embora ocorra com mais frequência no encontro da preposição “a” com o artigo definido “a” (Foi à igreja; Foi à escola), portanto antes de uma palavra feminina, também ocorre, entre outras situações, quando essa preposição antecede os pronomes demonstrativos iniciados pela vogal “a” (aquele, aqueles, aquela, aquelas, aquilo), caso em que surgem as formas àquele, àqueles, àquela, àquelas e àquilo.

Para saber se o pronome “aquele” deveria mesmo estar craseado, será necessário analisar sintaticamente o período em que ele aparece, verificando dessa forma a que elemento ele está ligado e, finalmente, se existe uma preposição “a” nele embutida.

Estamos diante de um período complexo, cujo centro é o verbo “cumprir”. Claro está que o verbo aqui não foi empregado no seu sentido corriqueiro, a saber, o de realizar algo que foi prometido (Ele sempre cumpre o que promete). Como é frequente nos textos jurídicos, “cumprir” está usado no sentido de “ser necessário”. Nessa acepção, seu sujeito não é um indivíduo, mas, em geral, uma ação. Dizemos que algo (ação) cumpre (Diante do ocorrido, cumpre manter-se atento).

Vemos, portanto, que, no período em questão, o sujeito de “cumprir” é representado pela oração “não só provar a infidelidade, mas também a ocorrência de uma conduta pública indiscreta”. É isso o que cumpre, ou seja, o que é necessário. O verbo “cumprir” admite, embora nem sempre o exija, o complemento objeto indireto (algo cumpre a alguém), que indica em quem recai o interesse da ação (Cumpre ao réu provar a sua inocência, isto é, “provar a inocência” [sujeito] cumpre “ao réu” [objeto indireto]).

Chegamos, assim, à análise do pronome “aquele” no período:  provar a infidelidade […] cumpre àquele que reclama compensação pecuniária pelo dano moral. Em outras palavras, cumpre a ele (a alguém) provar alguma coisa. A preposição “a” antes de “aquele” provoca a fusão dos dois “aa” (“crase”, em grego, quer dizer “fusão”). Em vez de “cumpre a aquele”, escrevemos “cumpre àquele”, fazendo a preposição fundir-se no “a” inicial de “aquele”.

Vale observar que o fragmento enviado por nosso leitor teria um ganho de clareza se nele fosse feito um ajuste quanto ao paralelismo sintático. Esse é outro assunto, que vamos discutir aqui no Português Claro mais adiante, mas, por ora, compare as duas redações abaixo (a primeira é a original):

A violação ao dever de fidelidade não gera, por si só, dano moral. Àquele que reclama compensação pecuniária pelo dano moral cumpre não só provar a infidelidade, mas também a ocorrência de uma conduta pública indiscreta.

A violação ao dever de fidelidade não gera, por si só, dano moral. Àquele que reclama compensação pecuniária pelo dano moral cumpre provar não só a infidelidade mas também a ocorrência de uma conduta pública indiscreta.

A pessoa terá de provar duas coisas (infidelidade e ocorrência de conduta pública indiscreta), portanto a estrutura correlativa “não só… mas também” (de adição) deve organizar esses dois elementos, ambos complementos de “provar”, sendo posta depois do verbo “provar”. Como temos uma correlação aditiva, dispensamos a vírgula.

Pra não ficarmos sem um áudio hoje, vamos ouvir o Fagner, que tratou do tema da infidelidade no plano da poesia, bem longe dos tribunais. Aqui vai a canção “Deslizes”:

Deslizes, autoria de Michael Sullivan e Paulo Massadas

Não sei por que/ Insisto tanto em te querer/ Se você sempre faz de mim/ O que bem quer/ Se ao teu lado/ Sei tão pouco de você/ É pelos outros que eu sei/ Quem você é//

Eu sei de tudo/ Com quem andas, aonde vais/ Mas eu disfarço o meu ciúme/ Mesmo assim/ Pois aprendi/ Que o meu silêncio vale mais/ E desse jeito eu vou trazer/ Você pra mim//

E como prêmio/ Eu recebo o teu abraço/ Subornando o meu desejo/ Tão antigo/ E fecho os olhos/ Para todos os teus passos/ Me enganando/ Só assim somos amigos//

Por quantas vezes/ Me dá raiva de querer/ Em concordar com tudo/ Que você me faz/ Já fiz de tudo/ Pra tentar te esquecer/ Falta coragem pra dizer/ Que nunca mais//

Nós somos cúmplices/ Nós dois somos culpados/ No mesmo instante/ Em que teu corpo toca o meu/ Já não existe/ Nem o certo, nem errado/ Só o amor que por encanto/ Aconteceu//

E é só assim que eu perdoo/ Os teus deslizes/ E é assim o nosso jeito de viver/ Em outros braços/ Tu resolves tuas crises/ Em outras bocas/ Não consigo te esquecer/ Te esquecer.