Os “paparazzis” e a pólvora

GRAMATICAIS. Pinçada de um texto de seção de variedades de um jornal paulista, a frase abaixo traz duas questões para quem se interessa por gramática. Vejamos o que escreveu o simpático redator, ao narrar a história de uma moça que se tornou conhecida por costurar vestidos de noiva para celebridades:

A cena foi fotografada por paparazzis e espalhou-se pelas redes como pólvora.

A esta altura, muita gente já sabe, pelo menos, que “paparazzi” é uma palavra italiana, o que é um bom motivo para desconfiar de que o “i” final seja uma marca de plural. Sim, em italiano, não se usa o “s” para indicar plural.

Os fotógrafos indiscretos, perseguidores de celebridades, tornaram-se conhecidos na Itália pelo nome de “paparazzi”, que é o plural de “paparazzo”, graças ao filme “La dolce vita”, de Federico Fellini, em que um desses profissionais tem o sobrenome Paparazzo. O nome próprio logo se tornou um nome comum, como costuma acontecer no Brasil com marcas de produtos (um “danone” no lugar de um iogurte, por exemplo, e outros casos que vierem à memória do leitor). Bem, foi assim que Paparazzo passou a ser sinônimo de certo tipo de fotógrafo, ou seja, aquele que está sempre no encalço de pessoas famosas, em busca do registro de alguma intimidade.

Como se trata de nome italiano, sua flexão segue as regras do idioma italiano, certo?. Dessa forma, mesmo em português, usamos o singular “paparazzo” e o plural “paparazzi”, portanto “os paparazzi”, sem o “s”.

Uma segunda observação suscitada pela frase diz respeito à formulação “espalhou-se como pólvora”. Dito dessa forma, temos a impressão de que a capacidade de se espalhar é uma propriedade da pólvora em si, o que é um tanto duvidoso. O que, de fato, se propaga rapidamente é o “rastilho de pólvora”, que é um fio coberto de pólvora. Pode parecer um detalhe, mas é a soma desses pormenores que faz o texto fluir ou não. Fica a dica e aqui vai uma sugestão:

A cena foi fotografada por paparazzi e espalhou-se pelas redes feito um rastilho de pólvora.

Uma segunda observação diz respeito à formulação “espalhou-se como pólvora”. Dito dessa forma, temos a impressão de que a capacidade de se espalhar é uma propriedade da pólvora em si, o que é um tanto duvidoso. O que, de fato, se propaga rapidamente é o “rastilho de pólvora”, que é um fio coberto de pólvora. Aqui vai a sugestão:

A cena foi fotografada por paparazzi e espalhou-se pelas redes sociais feito um rastilho de pólvora.

“Posto que”: causa ou concessão?

GRAMATICAIS. REVISORES. Nos dois trechos abaixo, o primeiro escrito por uma roteirista de TV e o segundo por um desembargador, veremos a locução conjuntiva “posto que” aparecer com nítido valor causal, ou seja, equivalente a “uma vez que”. Vamos aos fragmentos, ambos publicados na imprensa:

“Não sou roteirista, mas dentista. O que eu tenho com isso?” Tudo, posto que qualquer um é roteirista da própria vida.

Os documentos não comprovam a hipossuficiência do apelante [Garcia], mas, ao contrário, posto que é deputado estadual e possui remuneração bem acima de três salários mínimos”.

Esse uso popularizou-se no Brasil, mas a locução “posto que”, em sua origem, é concessiva (equivalente a “embora”), como se vê ainda em Portugal e em muitos autores brasileiros também. Dito isso, os dois fragmentos acima ganhariam em precisão se neles fosse usada uma conjunção causal (já que, uma vez que, porque etc.).

Os defensores do uso da locução com sentido causal sempre se lembrarão do emprego dela feito por Vinicius de Moraes no belíssimo “Soneto da Separação”, cujos versos finais, em que o eu lírico fala do amor, são muito conhecidos: “Que não seja imortal, posto que é chama/ Mas que seja infinito enquanto dure”. De fato, Vinicius toma a locução como causal – já que o amor é chama, não há como desejar que seja imortal, ideia que se resolve com o paradoxo mais famoso da literatura brasileira: “que seja infinito enquanto dure”.

Alguns gramáticos dirão que Vinicius lançou mão de uma licença poética, que é uma espécie de “autorização” para transgredir uma norma gramatical em nome de um propósito estético. Nesse caso, teríamos de buscar o propósito estético dessa escolha no contexto. Outra possibilidade, menos glamorosa, é que esse uso já estivesse razoavelmente fixado na linguagem cotidiana brasileira e tenha soado natural aos ouvidos do poeta.

Machado de Assis, por exemplo, usa regularmente essa locução, sempre com sentido concessivo. É interessante, aliás, observar uma passagem de seu romance “Quincas Borba”, a qual um leitor apressado de hoje, que desconhecesse o sentido de “posto que”, poderia interpretar incorretamente. Vejamos:

Quincas Borba leu-me daí a dias a sua grande obra. Eram quatro volumes manuscritos, de cem páginas cada um, com letra miúda e citações latinas. O último volume compunha-se de um tratado político, fundado no Humanitismo; era talvez a parte mais enfadonha do sistema, posto que concebida com um formidável rigor de lógica.

Quis dizer o narrador que, embora concebida com um formidável rigor de lógica, a obra era enfadonha, ou seja, opôs um elogio a um demérito. Um leitor apressado poderia pensar que a obra era enfadonha por causa do rigor de lógica. É claro que a ideia não se sustentaria no contexto da obra, mas ignorar o sentido de “posto que” pode tornar a compreensão do texto mais difícil.

A conjunção concessiva sugere oposição de ideias, mas não uma oposição direta como a das conjunções adversativas (mas, porém, todavia etc.). A concessiva introduz uma oração que indica uma circunstância de oposição que é insuficiente para mudar o curso de uma ação (Por mais que tentasse, não conseguia ler as letras miúdas; Embora chovesse forte, não desistiram do passeio; Posto que não concordasse com as ideias do grupo, decidiu endossá-las).

“Quaisquer filme, dia e horário” (?)

GRAMATICAIS. Sim, “quaisquer” é o plural de “qualquer”. Quanto a isso, não se discute. O problema da construção que intitula este artigo, publicada em reportagem de um jornal de São Paulo, está na concordância.  Vejamos:

A promoção é válida para quaisquer filme, dia e horário nos três cinemas de rua.

O redator, muito cuidadoso, deve ter pensado que, como o pronome indefinido se referia aos três substantivos subsequentes (filme, dia e horário), o certo seria fazer a flexão de número. Esqueceu-se, porém, de uma regra de concordância nominal, que diz respeito à posição do adjetivo referente a mais de um substantivo.

O adjetivo posto antes da sequência de substantivos concorda apenas com o mais próximo, ainda que se refira a todos. É por isso que dizemos, por exemplo, que fulano escolheu má hora e lugar para o encontro, jamais algo como “maus hora e lugar”, coisa que ninguém ouviu em lugar algum, certo?

Essa regra tem, sim, exceção, mas apenas no caso de se tratar de uma sequência de nomes próprios. Por exemplo: Os grandes Machado e Graciliano, cada qual em sua época, muito contribuíram para o aprimoramento da língua portuguesa.

Quanto ao excerto em questão, poderíamos separar “filme” de “dia e horário”, uma vez que estes últimos pertencem a um mesmo campo semântico, diverso do de “filme, e têm valor adverbial (donde deveriam estar antecedidos de uma preposição). Segue a sugestão:

A promoção é válida para qualquer filme, em qualquer dia e horário, nos três cinemas de rua.

“Ter” e “estar”

GRAMATICAIS. Os verbos “ter” e “estar”, vistos no infinitivo, não parecem ter nenhuma semelhança formal. Quanto ao significado, claro está que os dois são bem distintos. Ocorrem, porém, situações em que se toma um pelo outro, particularmente o “ter” pelo “estar”. É bem possível que o leitor destas linhas já tenha feito essa confusão, que é perdoável na conversa informal, mas não é recomendável nos textos escritos.

Em uma matéria jornalística, o redator manteve a literalidade da frase do entrevistado, como observamos a seguir:

“Se tivéssemos apenas com um desses fatores, eu já desaconselharia viagens internacionais neste momento. Podemos acrescentar a alta lotação de leitos hospitalares em alguns desses países [o que pode prejudicar uma eventual assistência a turistas, por exemplo]”, disse a infectologista.

O uso da preposição “com” nos leva a pensar que a intenção da pessoa foi dizer “se estivéssemos apenas com um desses fatores”, embora fosse possível extrair a preposição e manter a forma do verbo “ter” (se tivéssemos apenas um desses fatores). A confusão é muito frequente no dia a dia: “Se eu não tivesse tão cansado, iria com você”, “Quando eu tiver na cidade de novo, vou ligar para você”, “Se a gente não tivesse com tanto medo…”.

Alguns vão lembrar-se de um samba já antigo, que começa assim: “Quando eu tiver/ Com a minha cuca cheia de cachaça/ Te arranco dessa roda, te ganho na raça/ Te levo pra ser dona do meu barracão”. O samba, intitulado “Desafio”, pode ser ouvido na voz de Luiz Américo, ao término da leitura.

Isso ocorre porque, no pretérito perfeito e nos tempos dele derivados, o verbo “estar” se conjuga por analogia ao verbo “ter” (eu tive/ eu estive). Os tempos derivados do pretérito perfeito são o pretérito imperfeito do subjuntivo (tivesse/ estivesse), o futuro simples do subjuntivo (quando eu tiver/ estiver) e o pretérito mais-que-perfeito do indicativo (tivera/ estivera), de uso pouco frequente no cotidiano.

Na hora de escrever, vale ficar atento a essas formas, que, na fala, se misturam. O fragmento acima poderia sofrer uma das seguintes adaptações:

“Se tivéssemos apenas um desses fatores, eu já desaconselharia viagens internacionais neste momento”, disse…

“Se estivéssemos apenas com um desses fatores, eu já desaconselharia viagens internacionais neste momento”, disse…

Um pouco de música faz bem à nossa vida! Vamos ouvir?

Desafio

“Suficiente” e “o suficiente”

GRAMATICAIS. O trecho que examinamos hoje, extraído de matéria jornalística, levanta uma dúvida gramatical: afinal, existe diferença entre “suficiente” e “o suficiente” ou o uso de um ou outro é facultativo? Vejamos o fragmento:

A distribuição dos candidatos por sala é de responsabilidade do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), que havia assegurado ter espaços o suficiente para que todos os 5,7 milhões de inscritos fizessem a prova com segurança. 

Tendemos a observar primeiro a semelhança entre as expressões, que nos chega pelo seu significado. A diferença, como veremos, está ligada à sintaxe, sendo, portanto, algo mais abstrato.

“Suficiente” é um adjetivo com o qual caracterizamos aquilo que, em determinada circunstância, basta. Sendo um adjetivo, liga-se a um substantivo e com ele concorda em número (singular ou plural): não há tempo suficiente para fazer isso, há cadeiras suficientes para todos etc.   

Havendo um artigo antes do adjetivo “suficiente”, este é substantivado, o que ocorre em construções do tipo “Ganhava o suficiente para viver” ou “Tinha mais que o suficiente para as despesas”, nas quais “o suficiente” (substantivo) é núcleo do objeto direto. Em construções com o verbo “ser”, na função de predicativo, podem aparecer tanto o adjetivo “suficiente” como sua forma substantivada (“o suficiente”). Assim: “Talvez isso não seja suficiente” e “Talvez isso não seja o suficiente”.

Há situações, porém, em que “o suficiente” tem valor adverbial, o que significa, na prática, que equivale ao advérbio “suficientemente”. Como sabemos, é próprio dos advérbios modificar verbos, adjetivos ou outros advérbios, mas não substantivos. Começamos, então, a perceber por que “o suficiente” não se liga a substantivos.

Geralmente essa estrutura integra construções consecutivas (que exprimem consequência). Dizemos, por exemplo, que as cores eram vivas o suficiente para chamar a atenção a longa distância ou que a pessoa chegou cedo o suficiente para pegar o melhor lugar. Em ambos os casos, “o suficiente” tem o mesmo valor de “suficientemente”: as cores eram suficientemente vivas, a pessoa chegou suficientemente cedo. “Vivas” é adjetivo, “cedo” é advérbio. A palavra “espaços”, que aparece no fragmento selecionado, é um substantivo, daí o equívoco da escolha.

É por isso que é importante conhecer a sintaxe da língua. Comparemos estas duas construções:

  • O governante eleito terá coragem suficiente para mudar o rumo da política?
  • O governante eleito será corajoso o suficiente para mudar o rumo da política?

“Coragem suficiente”, pois “coragem” é substantivo; “corajoso o suficiente”, pois “corajoso” é adjetivo. É simples, não? Agora fica fácil corrigir o fragmento selecionado. Assim:

A distribuição dos candidatos por sala é de responsabilidade do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), que havia assegurado ter espaços suficientes para que todos os 5,7 milhões de inscritos fizessem a prova com segurança.

“Remedia” ou “remedeia”?

DÚVIDA RÁPIDA. Afinal, como se conjuga o verbo “remediar”? Vejamos como se expressou o entrevistado em matéria jornalística:

“Sabemos que isso não remedia a situação da família, mas nós vamos fazer tudo o que nos cabe e um pouco mais para poder chegar aos responsáveis”, disse à imprensa local.

À primeira vista, a forma destacada pode parecer correta, mas é preciso lembrar que “remediar” é um verbo irregular. Embora seja terminado em “-iar”, como “variar” (ele varia) ou “maquiar” (ele maquia), conjuga-se como aqueles terminados em “-ear”, como “passear” (ele passeia) ou “frear” (ele freia).

Essa irregularidade ocorre com os verbos “mediar” (ele medeia), “ansiar” (ele anseia), “remediar” (ele remedeia), “incendiar” (ele incendeia), “odiar” (ele odeia) e “intermediar” (ele intermedeia). Certamente as formas “odeia” e “incendeia” são familiares. Então lembre-se de que “remediar” segue esse modelo de conjugação. Assim:

“Sabemos que isso não remedeia a situação da família, mas nós vamos fazer tudo o que nos cabe e um pouco mais para poder chegar aos responsáveis”, disse à imprensa local.

Limitar ao máximo ou ao mínimo?

GRAMATICAIS. SEMÂNTICA. Nos dois fragmentos abaixo, extraídos de matérias jornalísticas, foi empregada a construção “limitar ao máximo”, que merece a nossa atenção. Vejamos:

Para tentar segurar o preço da energia em ano eleitoral, o governo pretende mudar os planos do uso dos recursos da privatização da Eletrobras para limitar ao máximo a conta de luz antes de os brasileiros irem às urnas.

A China voltou a restringir e confinar milhões de pessoas em seu território para tentar conter os novos surtos de Covid no país. Com uma média móvel de casos de aproximadamente 22 mil, o governo asiático tenta limitar ao máximo a circulação das pessoas, a fim de atingir o seu objetivo de “Covid zero”.

Verbos como limitar (no sentido de restringir), diminuir ou reduzir, por seu conteúdo semântico, não admitem como complemento terminativo a palavra “máximo”, que, em si, quer dizer o mais alto grau. Reduzir ao máximo é, assim, um contrassenso.

Limita-se, restringe-se, reduz-se, diminui-se algo ao mínimo, isto sim, pois a redução dirige-se para baixo. Diríamos, portanto, que o objetivo do governo brasileiro era limitar a conta de luz ao mínimo e o do governo chinês era limitar ao mínimo a circulação das pessoas.

O que seria igualmente possível – e deve ter sido a intenção dos redatores – era usar a expressão “o máximo” (ou “o máximo possível”), que funciona como intensificador da ação. Nesse caso, sem a preposição “a”, teríamos as seguintes construções: “limitar o máximo (o máximo possível) a conta de luz” e “limitar o máximo (o máximo possível) a circulação das pessoas”.

Em suma, limitamos (ou restringimos) algo ao mínimo (o mínimo é o limite a que chegamos) ou limitamos algo o máximo (intensificamos a ação de limitar). A confusão ocorre quando o redator usa “ao máximo” no lugar de “o máximo”.

Com verbos que indicam aumento, o problema não se coloca, pois podemos dizer “o governo elevou ao máximo os impostos” (até o mais alto grau) ou “o governo elevou o máximo (possível) os impostos” (elevou com a máxima intensidade). Embora as formulações sejam diferentes, as duas têm sentido aproximado e são coerentes.

Colocação pronominal: pronome átono antes ou depois do verbo?

GRAMATICAIS. Os pronomes átonos (o, a, os, as, lhe, lhes, me, te, se, nos, vos) ora ficam antes do verbo (próclise), ora ficam depois dele (ênclise). Há situações em que eles ficam no meio do verbo (mesóclise), o que se vê com baixa frequência no português do Brasil.

Existem várias regras de colocação, mas uma coisa é certa: o “que”, sendo pronome relativo ou conjunção, é um fator de próclise. Daí se dizer que o “que” atrai o “se”. Vejamos o que fez o redator de um comunicado oficial de uma escola:

“Também aproveitamos a oportunidade para levar nossas condolências aos estudantes e à equipe, reforçando nosso intuito de garantir suporte à comunidade escolar, com apoio psicológico a todos que sentirem-se atingidos por essa tragédia que se abateu sobre nossa escola”.

No trecho acima, o “que” é um pronome relativo (como o qual, a qual, os quais, as quais, cujo, cuja, cujos, cujas, quem), portanto “atrai” o pronome átono “se”. Na dúvida, o ouvido pode ajudar: entre “que sentirem-se” e “que se sentirem”, o que soa mais natural? Certamente a próclise!

É comum que, para dar ao texto certo ar de formalidade, o redator opte pela ênclise, mas esse não é um bom critério. Na maior parte das vezes, a colocação correta é a próclise, portanto o uso da ênclise para dar ar formal ou elegante acaba sendo um mau negócio, que atende pelo nome de hipercorreção.

Hipercorreção (ou ultracorreção) é uma espécie de falsa correção, em que o redator toma por errado o que estava certo e o “corrige” às avessas. Voltaremos a esse tema futuramente. Por enquanto, vamos corrigir o fragmento acima, que vai precisar também do pronome demonstrativo “os” depois de “todos”. Diga sempre “todos os que”, certo? Vejamos:

com apoio psicológico a todos os que se sentirem atingidos por essa tragédia que se abateu sobre nossa escola.

“Assistiu acontecer”: sim ou não?

GRAMATICAIS. REVISORES. O fragmento abaixo, extraído de texto jornalístico, foi selecionado por trazer um uso irregular do verbo “assistir”. Ao lado dessa questão, vale observar o emprego dos possessivos com termos que exprimem graus de parentesco, que, conforme explicado em publicação anterior, constitui redundância, embora não seja considerado incorreto.

Por trás dessa dinâmica estão ciclos que reproduzem sistemas de dominação e que perpetuam a desigualdade de gênero que Débora assistiu acontecer com suas duas filhas ainda meninas, assim como Milena soube ter acontecido com sua mãe.

A propósito do verbo “assistir”, observamos que está empregado como transitivo direto, no sentido de “ver” ou “presenciar”, caso em que, segundo a tradição, é transitivo indireto. Como sabemos, “assistir” pode ser transitivo direto, mas apenas quando significa “ajudar”, “auxiliar”, “prestar assistência” (A enfermeira assistiu o médico; O governo assistiu os desabrigados); no sentido usado no texto, equivalendo a “ver”, aparece em construções como Assistiu ao jogo ou Assistimos a cenas de horror. O verbo tem outros significados, que, no entanto, não serão examinados aqui.

O problema da construção acima é que a estrutura escolhida requer verbo transitivo direto (um dos auxiliares causativos ou sensitivos) antes de uma oração infinitiva que tem valor de objeto direto. Não cabe o transitivo indireto nessa posição.

Os auxiliares causativos são os verbos mandar, deixar e fazer em construções do tipo mandar entrar, deixar ver, fazer rir, nas quais provocam a ação expressa pelo infinitivo. Os auxiliares sensitivos são os verbos ver, ouvir e sentir em construções similares, como viu fazer, ouviu cantar, sentiu aproximar-se, nas quais indicam o modo de percepção da ação expressa pelo infinitivo. O que todos esses auxiliares têm de comum é serem transitivos diretos.

É essa transitividade que justifica ser o sujeito desses infinitivos um pronome oblíquo átono de objeto direto (me, te, se, nos, vos, o, a, os, as), como se vê nestas construções: Mandou-o entrar, Deixou-os sair, Não me faça rir, Não a viu chegar, Ouviu-a cantar, Sentiu-o aproximar-se. No registro oral brasileiro, é comum ouvirmos o pronome do caso reto nessa posição (Mandou ele entrar, Deixa eu ver, Não viu ela chegar), em desacordo com a tradição da língua.

O verbo “assistir”, no sentido de “ver”, é transitivo indireto. O fato de dois verbos serem sinônimos não os torna intercambiáveis em qualquer contexto, pois verbos podem ter regimes diferentes. No tipo de estrutura escolhido pelo redator do fragmento em questão, cabe “ver”, mas não cabe “assistir”.

Assim, no lugar de “[…]a desigualdade de gênero que Débora assistiu acontecer com suas duas filhas ainda meninas, assim como Milena soube ter acontecido com sua mãe”, bem usaríamos o verbo “ver”. Vejamos:

… a desigualdade de gênero que Débora viu acontecer com as duas filhas ainda meninas, assim como Milena soube ter acontecido com a mãe.

Em tempo: seria correto dizer “[…]a desigualdade de gênero a que Débora assistiu várias vezes na vida“, mas trata-se de outra construção (sem o infinitivo “acontecer”). 

“Apanhou do marido”: artigo no lugar do pronome possessivo

GRAMATICAIS. O fragmento abaixo saiu do noticiário recente, portanto é bem provável que o leitor não encontre dificuldade em compreendê-lo. Daqui a alguns anos, no entanto, o historiador que se debruçar sobre o jornal para estudar os acontecimentos talvez interprete o texto de outra forma. Vejamos.

No dia 9 de março, Givaldo foi flagrado fazendo sexo com a mulher do personal trainer Eduardo Alves dentro de um carro estacionado numa rua em Planaltina, no Distrito Federal. Apanhou do marido.

Sabemos que Givaldo, o sem-teto flagrado em ato sexual com uma mulher dentro de um carro, apanhou do personal trainer, marido dessa mulher, mas, caso não tivéssemos a informação pregressa e, portanto, dependêssemos desse texto para entender o que se passou, estaríamos a pensar que Givaldo apanhou do próprio marido. Como assim?

É que o artigo que antecede os termos que indicam graus de parentesco substitui o pronome possessivo relativo ao seu antecedente imediato. Vejamos alguns exemplos: Maria e o marido jantarão conosco, Rosa e o filho se salvaram, A herança beneficiou Júlia e o sobrinho. Não é preciso usar o pronome possessivo (“seu”) para indicar que se trata do marido de Maria, do filho de Rosa e do sobrinho de Júlia, certo?

Em casos como esses, embora não seja uma incorreção, o uso do possessivo é considerado uma redundância. Não se diz, por desnecessário, Maria e o seu marido jantarão conosco, A mulher e o seu filho se salvaram, A herança beneficiou Júlia e o seu sobrinho.

Isso ocorre porque esses termos são relacionais, ou seja, eles se definem em relação um ao outro. Ninguém é “pai” se não tiver um “filho”; o “filho”, por sua vez, só o é em relação ao próprio “pai”. É por isso que não há necessidade de dizer “Maria e seu marido”.

Se o termo “marido” tivesse outro referencial que não Maria, aí sim, seria necessário explicitar isso: “Maria e o marido da irmã jantarão conosco” – como agora não se trata do marido de Maria, a especificação é necessária; “irmã”, por sua vez, não requer especificação, pois se refere à própria Maria.

Voltando ao fragmento inicial, temos o seguinte: “Givaldo foi flagrado fazendo sexo com a mulher do personal trainer […]. Apanhou do marido”. De quem é o marido, que aparece sem especificação? Só pode ser de Givaldo…

Imaginemos que a frase fosse esta: “Givaldo foi flagrado fazendo sexo com a mulher dentro de um carro”. Entenderíamos que Givaldo estava no carro com a própria esposa, certo? É exatamente a mesma situação de “Givaldo […] apanhou do marido” (apanhou do próprio marido). Basta lembrar quantas vezes (infelizmente) já ouvimos frases como Fulana apanhou do marido e entendemos que essa mulher foi vítima do próprio marido.

Para ajustar o texto em questão, bastaria especificar o termo “marido”: Apanhou do marido dela. Dessa forma, o sentido pretendido estaria preservado.