GRAMATICAIS. O verbo “tratar” tem várias acepções, que logo virão à mente do leitor (tratar bem ou mal uma pessoa, tratar uma doença ou de uma doença, tratar-se com antibióticos, tratar um assunto ou de um assunto etc.), mas hoje interessa examinar um uso muito particular desse verbo.
Estamos falando da expressão “trata-se de”, que tem mais ou menos o mesmo sentido de “ser” ou de “consistir em”. Nessa construção, o verbo permanece na terceira pessoa do singular (Trata-se de um assunto delicado; Trata-se de temas delicados). Nesse sentido, “trata-se” é uma forma fixa que, normalmente, anuncia a retomada de um elemento que já apareceu no texto. Vejamos dois exemplos, ambos corretos:
- Muitas pessoas acham que devem lavar o frango antes de cozinhá-lo. Trata-se de um erro comum e que aumenta o risco de intoxicação alimentar.
- Realizado no último domingo, o primeiro turno do pleito em que será escolhido o novo presidente da Colômbia foi marcado pela rejeição, por parte expressiva do eleitorado, do establishment político que vem governando o país nas últimas décadas. Trata-se de um desfecho que não chega a surpreender.
Nos casos acima, a expressão equivale a “esse é” ou “esse foi” (“esse é um erro comum”, “esse foi um desfecho”). Como se vê, “trata-se de”, nesse sentido, não tem sujeito expresso, ou seja, não há algo ou alguém que “se trate”. A estrutura costuma ser analisada como um caso de sujeito indeterminado, sendo a partícula “se” o índice dessa indeterminação do sujeito. Dito isso, examinemos a seguinte passagem:
O nome de Givaldo ela só foi saber 15 dias depois. Aí finalmente se deu conta de que ele não se tratava de uma “divindade”.
Givaldo foi o mendigo que se tornou celebridade por ter sido, segundo noticiado, convidado por uma mulher para um encontro sexual dentro de um carro e, depois, ter apanhado do marido dela, que pegou os dois em flagrante. Ela, por sua vez, disse que o teria confundido com uma divindade e o atraído para uma conjunção espiritual. Foi nesse contexto que o jornalista escreveu a frase acima.
Como se vê, o uso de “se tratava” não tem cabimento no contexto, pois o sujeito está expresso (“ele”). O sentido pretendido seria alcançado com o uso do verbo “ser” (“ele não era uma divindade”). Assim:
O nome de Givaldo ela só foi saber 15 dias depois. Aí finalmente se deu conta de que ele não era uma “divindade”.