PARA ALÉM DA GRAMÁTICA. DEU NA MÍDIA. Há títulos jornalísticos que só são bem compreendidos por quem já tenha visto a notícia em outro lugar. O redator, que está enfronhado no assunto, certamente não percebe as interpretações que suas palavras podem suscitar. O resultado pode ser uma boa confusão ou mesmo “desinformação”, como hoje se diz.
Vejamos um título curioso, no qual apontamos uma situação de ambiguidade (ou dupla leitura) por falta de um termo que descreva uma situação de tripla leitura (!). Vamos ao fragmento:
Michelle pediu que André Marinho imitasse Bolsonaro após saber de facada, diz comunicador em livro
O sintagma “após saber da facada”, uma oração subordinada adverbial temporal, pode referir-se a Bolsonaro, o termo que lhe é mais próximo, mas também a Michelle e a André Marinho. A qual dos três se refere o verbo “saber”?
A leitura do texto subsequente nos dará a pista: foi Michelle que, após saber da facada (o misterioso atentado de Juiz de Fora), pediu a André Marinho que imitasse Bolsonaro. A notícia em si é um pouco estranha, mas não nos deteremos nas idiossincrasias da relação do casal. O fato relatado é que André Marinho informa Michelle de que o marido dela levou uma facada durante um comício e a reação imediata dela é pedir a ele que imite o marido dela. Importa aqui observar que a posição do adjunto adverbial (que, às vezes, é uma oração adverbial) é um elemento relevante para a clareza do texto.
Ao colocar a oração adverbial reduzida de infinitivo (o verbo “saber”, no infinitivo, sem sujeito explícito) depois dos três nomes, o redator abre a possibilidade de que o verbo se refira a qualquer um deles. De pouca valia é a “regra” jornalística de começar os títulos pelo sujeito da oração quando a compreensão do texto é prejudicada. Mais importante, sempre, é assegurar a clareza da informação. Veja uma sugestão:
Após saber de facada, Michelle pediu a André Marinho que imitasse Bolsonaro, diz comunicador em livro
Vale observar que o verbo “pedir” tem dois complementos: o que se pede e a quem se pede (pediu a André Marinho que imitasse Bolsonaro). No texto original, os dois complementos se fundem em um só (pediu que André Marinho imitasse Bolsonaro). O problema desta última construção é que não se diz a quem foi dirigido o pedido. Até pode estar subentendido, mas a língua portuguesa oferece os recursos para uma expressão clara e elegante.