GRAMATICAIS. Os trechos abaixo são partes do relato noticioso de um sequestro, publicado em um dos grandes jornais de São Paulo. Os fragmentos suscitam duas questões linguísticas interessantes, uma de concordância de gênero, outra de ordem dos termos e duplo sentido. Vejamos.
Uma mulher de 48 anos e dois homens, de 54 e 24, foram presos em flagrante por extorsão e associação criminosa. Um homem de 22 anos procurado da Justiça foi capturado na mesma ocorrência. […]
Os agentes foram informados de que uma das envolvidas estava na rua Manoel Nascimento Pinto, no Jardim Guarani (zona norte). A mulher permitiu a entrada no imóvel dos policiais, que lá encontraram dois homens.
A leitura do primeiro parágrafo nos informa que o grupo de sequestradores continha uma mulher e dois homens. No segundo, temos a construção “uma das envolvidas”, no feminino, que estaria correta no caso de haver mais de uma mulher envolvida (“as envolvidas”).
Rigorosamente, a mulher é um dos envolvidos, pois o grupo é misto quanto ao gênero, mas isso não quer dizer que a melhor correção do trecho fosse simplesmente substituir o feminino pelo masculino. Bastaria ter dito que “a mulher” estava na rua Manoel Nascimento Pinto, sendo essa a mesma mulher que permitiu a entrada dos policiais na casa que serviu de cativeiro (ver abaixo a sugestão de reescrita).
A segunda questão a observar diz respeito à ordem dos termos, que produz ambiguidade. No texto, optou-se por dizer “permitiu a entrada no imóvel dos policiais”. Os termos “no imóvel” e “dos policiais”, em tese, poderiam estar em qualquer ordem, já que os dois estão sintaticamente ligados ao mesmo substantivo (“entrada”). Ocorre, porém, que a sequência “no imóvel dos policiais” traz outro sentido possível, o de que os policiais são os proprietários do imóvel. Evitar essa ambiguidade não era difícil, pois a simples mudança de posição desses elementos tornaria claro o texto (“entrada dos policiais no imóvel”).
É provável que a escolha dessa ordem esteja ligada ao fato de que o redator queria dar continuidade ao texto a partir do termo “policiais” (“policiais, que lá encontraram dois homens”). Ao inverter a posição, a oração adjetiva (iniciada pelo “que”) teria de ficar depois de “imóvel”, o que levaria a outras alterações para manter a coerência e a clareza do enunciado.
Uma possibilidade seria o uso da voz passiva (“entrada dos policiais no imóvel, onde foram encontrados”). Antes de “dois”, vale usar o artigo (“foram encontrados os dois homens”), pois a informação de que havia dois homens já tinha sido transmitida no parágrafo anterior (o artigo definido indica ser o elemento já conhecido do leitor).
Vejamos uma sugestão de reescrita:
Uma mulher de 48 anos e dois homens, de 54 e 24, foram presos em flagrante por extorsão e associação criminosa. Um homem de 22 anos procurado da Justiça foi capturado na mesma ocorrência. […]
Os agentes foram informados de que a mulher estava na rua Manoel Nascimento Pinto, no Jardim Guarani (zona norte). Ela permitiu a entrada dos policiais no imóvel, onde foram encontrados os dois homens.
ATENÇÃO: As imagens usadas nas publicações são meramente ilustrativas e inspiradas no conteúdo do trecho analisado.