Títulos jornalísticos

DEU NA MÍDIA. Uma situação que geralmente cria dificuldades para o jornalista fazer um bom título de matéria é aquela em que é preciso relatar a descoberta do que alguém disse ou fez antes de morrer. Como precisa remeter o leitor à pessoa morta, que foi notícia por ter morrido, o redator acaba se saindo com uma construção como as seguintes:

  1. Empresário morto prometeu delatar policiais em acordo
  2. Morto em aeroporto delatou agentes de 2 DPs e 2 departamentos da polícia

A mesma notícia em dois grandes jornais brasileiros recebeu os títulos acima. Em ambos, na prática, foram atribuídas ações a uma pessoa morta. É claro que a intenção era dizer que tais ações podem ter levado ao seu assassinato.  Como sair dessa armadilha?

Não existe uma receita que funcione sempre, ou seja, cada caso é um caso! No lugar de “empresário morto”, seria possível empregar “empresário que foi assassinado”, com verbo no pretérito perfeito, e usar o pretérito mais-que-perfeito no verbo que indica ação anterior (“tinha prometido”). Ao usar os dois pretéritos, o perfeito e o mais-que-perfeito, é possível mostrar que, ambas no passado, uma ação antecedeu a outra. Vejamos:

  • Empresário que foi assassinado tinha prometido delatar policiais em acordo

Aqui vale fazer uma observação: o particípio passado (morto, assassinado) pode ter valor de adjetivo, o que ocorre quando associado a um substantivo (empresário morto), mas mantém seu valor verbal quando associado a um verbo auxiliar (foi morto, foi assassinado). Essa circunstância é especialmente importante no caso em questão.

No segundo título, o particípio “morto” é usado como substantivo núcleo do sujeito; nesse caso, poderia ser mantido o termo “morto” como particípio de “matar” (“morto”, aliás, é particípio de “morrer” e de “matar”) com valor verbal. Assim:

  • Antes de ser morto em aeroporto, empresário tinha delatado agentes de 2 DPs e de 2 departamentos da polícia

Naturalmente, é possível propor outras sugestões. Alguém quer tentar?

Um abraço e até a próxima dica!

Publicado por Thais Nicoleti

Thaís Nicoleti é formada em português e linguística pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e licenciada pela Faculdade de Educação da mesma universidade.

Um comentário em “Títulos jornalísticos

  1. A maneira como Thaís Nicoleti usa o que chama de “pretérito mais-que-perfeito” encomprida o título, haverão de reclamar jornalistas-tituleiros e diagramadores. Para atender a esses dois tipos de especialistas, mais direto seria o uso do pretérito mais-que-perfeito como era ensinado “antigamente”. Assim, em vez de “tinha prometido”, que é a sugestão de Thaís, poderia ser escrito “prometera”. Na solução de Thaís, o título passa de 56 toques para 76 toques (incluídos espaços em branco). Na solução mais direta, aumenta apenas um toque, ao substituir “prometeu” por “prometera”. O argumento de economia de espaço não subsiste. Porém, na minha maneira de ver, o que está acontecendo é mesmo o empobrecimento do uso da língua, com o abandono de alguns de seus recursos. Exemplo é o pretérito mais-que-perfeito, cujo uso vai escasseando. Daí, quando se pensa empregá-lo, tende a ser rejeitado, porque a sonoridade “incomoda”. Essa minha percepção fica mais clara quando, no caso do segundo título, se cogita empregar “delatara”. “…empresário delatara agentes…”. Muitos ouvidos d’hoje em dia estranharão a sonoridade dessa sequência de palavras. Ou não?

    Curtir

Deixe um comentário