Homicídio, feminicídio, genocídio

GRAMATICAIS. SEMÂNTICA. As três palavras acima têm a mesma terminação, portanto é muito provável que haja algo de comum entre elas, certo? O elemento “-cídio” indica a ação de quem mata ou o resultado dessa ação.

“Homicídio” é, portanto, o ato de provocar a destruição da vida de um homem, entendido aqui como ser humano, não apenas como pessoa do sexo masculino. Quando dizemos, por exemplo, que “todo homem é mortal”, estamos falando de toda a humanidade, de todos os seres humanos.

O termo “feminicídio” é recente na língua portuguesa (datado de 2012, segundo o dicionário Houaiss) e, embora seja composto de elementos latinos, tem origem na língua inglesa, que, mesmo não sendo oriunda do latim, deste recebeu influência.

A palavra denomina os crimes praticados contra mulheres por discriminação de gênero, entre os quais se incluem aqueles ocorridos como consequência de violência doméstica. O reconhecimento de que mulheres são agredidas sistematicamente por seus próprios companheiros ou namorados, muitas vezes chegando a perder a vida, trouxe a nova tipificação criminal e com ela a nova palavra.

No Direito, o feminicídio é definido como uma circunstância qualificadora do crime de homicídio, que figura, no Brasil, no rol dos crimes hediondos. Nem todo assassinato de mulher é feminicídio. Para que assim seja considerado, é necessário determinar as circunstâncias e motivações do crime.

Na língua portuguesa, já existia o termo “uxoricídio”, que denomina o assassínio de uma mulher por seu marido (“uxori-“, em latim, quer dizer “esposa”), mas “feminicídio” , além de chegar pelo inglês por influência de autores norte-americanos que trataram do tema, é mais abrangente, incluindo qualquer mulher cujo assassinato se dê por discriminação de gênero, não sendo o ato necessariamente perpetrado pelo seu marido.

“Genocídio”, por sua vez, é o termo que denomina o extermínio deliberado, que pode ser total ou parcial, de uma comunidade, grupo étnico ou religioso. Essa palavra surgiu para nomear a matança de judeus na Segunda Guerra Mundial pelo regime nazista de Adolf Hitler.

Termos novos (ou neologismos) surgem para nomear novos objetos, fatos ou conceitos. Às vezes, os fatos não são propriamente novos, como é o caso do extermínio dos indígenas no Brasil no período da colonização e da violência específica contra a mulher.

Ocorre, porém, que os historiadores reinterpretam os fatos e, assim, lançam mão de novos conceitos para explicá-los. A palavra “genocídio”, que surgiu em 1945, no âmbito da Segunda Guerra Mundial, hoje é usada também para aludir a vários episódios da história, inclusive a destruição dos povos originários do Brasil, cujos remanescentes ainda lutam pela sobrevivência em condições adversas.

A violência doméstica, infelizmente, não é tão recente quanto a palavra “feminicídio” nem quanto a lei que pune esse tipo de crime, a qual data de 2015 (governo Dilma Rousseff). Os fatos eram, no entanto, invisibilizados, não noticiados. A palavra surge quando a luta das mulheres atinge certo nível de visibilidade na sociedade, e seu uso reforça a existência do problema e a necessidade de enfrentá-lo coletivamente.

Nosso objetivo aqui é tratar das palavras, mas, como se vê, é impossível falar delas sem tratar daquilo que nomeiam. Voltemos, pois, a alguns aspectos formais que podem ser úteis para a compreensão do tema.

A pessoa que comete um homicídio é chamada de “homicida”. Note que o sufixo “-cida”, em si, significa “aquele (ou aquilo) que mata”. Pensando nisso, fica fácil entender o significado de “formicida” ou de “inseticida”, certo?

Existe uma correlação entre os sufixos “-cídio” (ação de matar) e “-cida” (agente), estando o primeiro ligado aos substantivos abstratos que nomeiam ações (homicídio, feminicídio, genocídio, infanticídio, regicídio, parricídio, matricídio, filicídio, suicídio) e o segundo ao elemento que pratica essas ações (homicida, feminicida, genocida, infanticida, regicida, parricida, matricida, filicida, suicida, formicida, inseticida).

Se “formicida” (o que mata formigas) e “inseticida” (o que mata insetos) são tipos de veneno, os demais, referentes a pessoas, estão associados a algum tipo de crime: o infanticida é aquele que mata crianças, o regicida mata o rei, o parricida mata o pai, o matricida mata a mãe, o filicida mata o filho; o suicida, como sabemos, mata a si próprio (“sui”, em latim, quer dizer o mesmo que “se”, “si mesmo”).

Conhecendo o significado de sufixos, como esses que aqui abordamos, é possível criar novas palavras e compreender de imediato aquelas que vão aparecendo. O termo “generocídio” (do inglês “gendercide”), que ainda não está nos dicionários de língua portuguesa, já vem sendo usado na internet, desta vez para denominar o assassinato de pessoas por seu gênero (nesse caso, não só homens e mulheres, mas pessoas transgênero ou não binárias).

Todos os termos terminados em “-cídio” são masculinos (o genocídio, o feminicídio, o suicídio); os terminados em “-cida”, quando referentes a pessoas, podem ser masculinos ou femininos (o homicida/ a homicida) e, quando referentes a agentes não humanos, ficam no gênero masculino (o inseticida).

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Próclise é colocação mais comum no Brasil

GRAMATICAIS. O título acima expressa uma espécie de consenso nacional. No português do Brasil, há predileção pelo uso do pronome átono antes do verbo, independentemente da situação, o que seria uma das marcas que distinguem a sintaxe brasileira da portuguesa.

Na linguagem espontânea, isso parece de fato ser verdade. No registro escrito, no entanto, a ênclise continua sendo usada com frequência, embora nem sempre de acordo com a tradição. O exemplo a seguir, extraído de um texto jornalístico, mostra um desses casos, que não são poucos (basta observar com atenção as páginas dos jornais). Vejamos:

“Em resposta a um artigo publicado na revista The Economist, o chanceler Mauro Vieira escreveu uma carta elogiando Lula. Nela afirmou que a ‘autoridade moral’ do presidente é ‘indiscutível’. Indiscutível não é, tanto que a revista discutiu-a.”

A prática de usuários escolarizados do idioma, como os jornalistas e os intelectuais, mostra, na verdade, um quadro bastante irregular. Se, na fala, a próclise de fato prevalece, na escrita, as coisas mudam um pouco de figura. O excerto acima é um dos muitos em que um autor escolhe a ênclise numa situação caracteristicamente de próclise. Dito de outra forma, a tradição luso-brasileira jamais usou ênclise na oração subordinada iniciada pela conjunção (“tanto que”), uma situação típica de próclise, como se pode aferir em qualquer gramática.

Ora, se nós, brasileiros, somos adeptos incondicionais da próclise, a ponto de a usarmos até no início dos períodos (pelo menos, no registro informal), por que, em uma situação típica de próclise, optaríamos pela ênclise?

É possível aventar a hipótese de que a ênclise, por ser mais rara entre nós, soe mais erudita, o que levaria à sua escolha em certos contextos. Essa é uma possibilidade, que, na verdade, mostra desconhecimento das regras – e isso não surpreende, pois as escolas têm dado pouca atenção a esse tópico. Na prática, porém, voltando ao período acima, percebemos como a leitura da frase fica postiça com a ênclise. Experimente ler o período em voz alta com a colocação pronominal correta:

Em resposta a um artigo publicado na revista The Economist, o chanceler Mauro Vieira escreveu uma carta elogiando Lula. Nela afirmou que a “autoridade moral” do presidente é “indiscutível”. Indiscutível não é, tanto que a revista a discutiu.”

Muito mais natural – e correto, à luz da norma padrão da língua portuguesa.

A dica de hoje para os que se orientam pela norma padrão é manter a próclise nas orações subordinadas iniciadas por uma conjunção. Alguns exemplos: Embora se sentisse triste, saiu com os amigos; Como lhe dissera antes, não pretendia continuar no curso; Se me ajudar agora, será recompensado. As conjunções “embora”, “como” e “se” são fatores de próclise.

Voltaremos a este tema mais vezes.

‘Assertivo’ não quer dizer ‘certo’

SEMÂNTICA. Uma palavra que temos ouvido com grande frequência ultimamente é o adjetivo “assertivo”. Assim, de ouvido, “assertivo” parece guardar alguma relação com “acerto”, “ato de acertar” e, daí em diante, a rede de conexões semânticas pode levar à ideia de precisão ou exatidão. Não à toa, às vezes, encontramos a grafia “acertivo”, que, pelo menos por enquanto, não existe. Hoje, vamos tentar desfazer essa confusão.

Para exemplificar esse uso, vamos examinar um fragmento de notícia publicada em um grande jornal brasileiro. Vejamos:

“Em relação à segurança do paciente neste tipo de procedimento, [o cirurgião] explica que muitos médicos vêm utilizando o ultrassom na cirurgia para que o enxerto seja assertivo e não perfure nenhuma veia. Ele também acredita que o enxerto na própria gordura é mais seguro que o enxerto direto no músculo.”

O texto traz explicações sobre as possíveis causas da morte de uma mulher que se submeteu a uma cirurgia estética. Embora a reportagem não explique o caso em detalhes, depreende-se que tenha sido feita uma lipoescultura, ou seja, uma combinação de lipoaspiração com enxerto da gordura extraída em outras partes do corpo. No enxerto, segundo médicos ouvidos, pode ter ocorrido “embolia gordurosa”.

No trecho acima, é provável que se pretendesse dizer que médicos vêm utilizando o ultrassom para que o enxerto seja mais preciso e não perfure nenhuma veia. O leitor compreende, em linhas gerais, a ideia, mas o termo “assertivo” não tem função nesse contexto.

Para começar, “assertivo” deriva de “asserto”, não de “acerto”. “Asserto” ou “asserção” é uma opinião emitida como verdadeira. É por isso que, quando alguém se expressa com grande convicção, dizemos que usou “tom assertivo”. O adjetivo “assertivo” diz respeito, portanto, ao modo de declarar algo, que pode ser positivo ou negativo. Assertivo alterna-se com interrogativo, imperativo, exclamativo, enfim, é um modo de dizer. Então, não há como dizer que um enxerto é “assertivo”, certo?

A palavra entrou na moda nos últimos tempos, mas frequentemente vem sendo usada do modo como apareceu no fragmento selecionado. Quando ouvir um “assertivo”, observe se o uso está mesmo adequado. Fique atento e não se confunda!

Um defeito de sintaxe

PARA ALÉM DA GRAMÁTICA. O tema de hoje é um defeito de construção sintática que pode produzir uma boa dose de confusão. Geralmente, quando lemos um texto na imprensa sobre um assunto que está sendo discutido, temos condições de interpretar o sentido de uma construção ambígua graças ao nosso conhecimento prévio. É como se já soubéssemos de que se trata, portanto ajudamos a construir o sentido desejado.

Quando lemos um texto mais formal, cujo sentido não esteja atrelado ao noticiário, uma construção inadequada pode fazer toda a diferença. O exemplo de hoje é um título jornalístico que, embora não seja antigo, também não é recente. Como o fato teve grande repercussão, certamente você o entenderá. Vejamos:

Após chamá-lo de “gordola”, Dino nega recursos de Monark

Dino é o ministro Flávio Dino, do STF, e Monark é um ex-youtuber que teve seus canais fechados na rede social e hoje vive fora do Brasil. Sabendo quem é quem e conhecendo o fato, não haveria dúvida: Monark, em atitude irreverente, chamou o ministro de “gordola”. O ministro processou o rapaz e negou seus recursos, certo?

Pois bem. Agora vamos ao fato gramatical. Do modo como a frase foi construída, o sujeito de “chamá-lo” (ou seja, quem chamou) é Dino. Se Dino chamou alguém de gordola, esse alguém, no contexto, poderia ser interpretado como o outro personagem (Monark). Que confusão!

Por que isso acontece? É este o momento de você usar seu conhecimento de orações subordinadas. Sim, isso mesmo. Saber que uma oração é subordinada a outra é uma informação valiosa para quem quer entender a gramática da língua. No período em análise, a oração principal é “Dino nega recursos de Monark”; a oração subordinada exerce uma função sintática em relação à principal, no caso, a função de adjunto adverbial de tempo. Observe que “Após chamá-lo de ‘gordola'” responderia a uma pergunta de tempo. Assim: quando Dino nega recursos? Ele nega recursos após determinado fato.

Agora que você recordou a relação entre oração principal e oração subordinada (esta exerce uma função da outra), vai a dica de ouro: quando a oração subordinada antecede a principal (exatamente como ocorre no período em questão) e seu verbo não tem sujeito explícito, automaticamente entendemos que esse sujeito (elíptico ou oculto) é o mesmo da oração principal, que foi estilisticamente omitido. Isso é da natureza da língua portuguesa. É assim que funciona e é assim que chega a quem ouve.

Pensando nessa estrutura, uma correção possível do período, mantendo intacta a oração principal, seria esta:

Após ser chamado de “gordola”, Dino nega recursos de Monark

Nessa construção, Dino é sujeito de ambas as orações, mas, como o verbo está na voz passiva, Dino recebeu o tratamento irreverente. Essa formulação ainda precisaria de contexto para ajudar na sua compreensão, pois ela omite que quem chamou Dino de “gordola” foi Monark. Conseguimos resolver isso?

Após ser chamado de “gordola” por Monark, Dino nega seus recursos

Outra solução seria voltar ao orginal e mudar a oração principal:

Após chamar Dino de “gordola”, Monark tem recursos negados por ele

Você pode encontrar outras soluções. O que importa é usar seus conhecimentos para tornar a expressão o mais clara possível. A correção de defeitos de sintaxe, como esse, não é pontual, como o são correções ortográficas, por exemplo. Isso quer dizer que não existe uma só resposta para essa questão. Quanto mais recursos você tiver à disposição na memória, mais possibilidades você terá de criar construções claras, corretas e, quando necessário, criativas.

Títulos jornalísticos

DEU NA MÍDIA. Uma situação que geralmente cria dificuldades para o jornalista fazer um bom título de matéria é aquela em que é preciso relatar a descoberta do que alguém disse ou fez antes de morrer. Como precisa remeter o leitor à pessoa morta, que foi notícia por ter morrido, o redator acaba se saindo com uma construção como as seguintes:

  1. Empresário morto prometeu delatar policiais em acordo
  2. Morto em aeroporto delatou agentes de 2 DPs e 2 departamentos da polícia

A mesma notícia em dois grandes jornais brasileiros recebeu os títulos acima. Em ambos, na prática, foram atribuídas ações a uma pessoa morta. É claro que a intenção era dizer que tais ações podem ter levado ao seu assassinato.  Como sair dessa armadilha?

Não existe uma receita que funcione sempre, ou seja, cada caso é um caso! No lugar de “empresário morto”, seria possível empregar “empresário que foi assassinado”, com verbo no pretérito perfeito, e usar o pretérito mais-que-perfeito no verbo que indica ação anterior (“tinha prometido”). Ao usar os dois pretéritos, o perfeito e o mais-que-perfeito, é possível mostrar que, ambas no passado, uma ação antecedeu a outra. Vejamos:

  • Empresário que foi assassinado tinha prometido delatar policiais em acordo

Aqui vale fazer uma observação: o particípio passado (morto, assassinado) pode ter valor de adjetivo, o que ocorre quando associado a um substantivo (empresário morto), mas mantém seu valor verbal quando associado a um verbo auxiliar (foi morto, foi assassinado). Essa circunstância é especialmente importante no caso em questão.

No segundo título, o particípio “morto” é usado como substantivo núcleo do sujeito; nesse caso, poderia ser mantido o termo “morto” como particípio de “matar” (“morto”, aliás, é particípio de “morrer” e de “matar”) com valor verbal. Assim:

  • Antes de ser morto em aeroporto, empresário tinha delatado agentes de 2 DPs e de 2 departamentos da polícia

Naturalmente, é possível propor outras sugestões. Alguém quer tentar?

Um abraço e até a próxima dica!

“Há” ou “a”?

BÁSICO E IMPORTANTE. DÚVIDA RÁPIDA. O uso de “há” ou “a” na indicação de tempo costuma trazer dúvidas. O erro mais comum consiste em usar a preposição “a” onde caberia uma forma do verbo “haver”.

Vejamos um trecho extraído de recente matéria jornalística:

Ao chegar à terceira idade, o brasileiro viverá, em média, mais 22,5 anos. Entre os homens, a taxa cai para 20,7 anos; entre as mulheres, sobe para 24 anos, segundo novo estudo do IBGE. Diferenças à parte, o fato é que a entrada nos 60 desperta hoje expectativas e desafios bem distintos dos que existiam a pouco tempo atrás.

Quando nos referimos a tempo decorrido, usamos a forma do verbo “haver”: “há pouco tempo”, equivalente a “faz pouco tempo”. Tanto o verbo “haver” como o verbo “fazer”, nessa construção, são considerados impessoais, isto é, verbos sem sujeito. Por esse motivo, permanecem na terceira pessoa do singular. 

Outro elemento importante: não se usa o advérbio “atrás” como indicação de passado quando se emprega a forma “há”. Você não diria “faz pouco tempo atrás”, certo? Pois então também não diga “há muito tempo atrás”. O advérbio pode ser usado como referência ao passado, mas, se for essa a sua escolha, não use o verbo haver, tampouco a preposição “a”. 

Na prática, temos duas construções corretas. Veja:

Diferenças à parte, o fato é que a entrada nos 60 desperta hoje expectativas e desafios bem distintos dos que existiam há pouco tempo.

Diferenças à parte, o fato é que a entrada nos 60 desperta hoje expectativas e desafios bem distintos dos que existiam pouco tempo atrás.

Agora que você compreendeu que a forma “há” é usada para o tempo passado, observe o que acontece quando a expressão indica um intervalo:

A dois meses da eleição, o candidato renunciou.

Nesse caso, usamos a preposição “a”, que indica distância, ainda que medida no tempo. Queremos dizer que faltavam dois meses para a eleição quando o candidato renunciou. “Dois meses” é o tamanho do intervalo entre a renúncia e a eleição. Essa mesma preposição “a” aparece em “daqui a pouco” ou “daqui a dois meses”.

Esse “a” é o mesmo da construção que aparece na canção “A dois passos do paraíso”, da Blitz. Quer ouvir? Aqui.

Simples, não? Fique atento e capriche nos e-mails e mensagens de texto, evitando o uso incorreto. Até a próxima dica!

Tomar emprestado: concordância

GRAMATICAIS. Na língua portuguesa, existem dois sistemas de concordância, o verbal e o nominal. A concordância verbal expressa, por meio da flexão das formas verbais, a relação entre o sujeito da oração e o verbo a ele relacionado; a concordância nominal expressa, por meio da flexão de nomes, a relação entre o substantivo e os termos a ele associados.

Para não cometer o erro de concordância, é preciso perceber a relação sintática entre os termos da oração. Abaixo, selecionamos um trecho de reportagem jornalística que traz um caso interessante de concordância nominal. Vejamos:

De tão misterioso o evento, parte da equipe de segurança pôde se dar ao luxo de ficar sentada do lado de fora, de pernas abertas, batendo papo e respondendo a mensagens de texto. Em dado momento, tomaram emprestado da cozinha alguns copos com água e gelo, brindando como se estivessem tomando uísque.

A primeira observação a fazer é que “tomar emprestado”, embora seja uma construção usual, não é uma expressão fixa. Em outras palavras, tomamos “algo” emprestado, sendo “algo” o núcleo substantivo a que se refere o particípio passado “emprestado”. Lembrete: o particípio passado, como os adjetivos, concorda em gênero e número com o substantivo a que se refere.

No trecho acima, “emprestado” se refere ao sintagma “alguns copos com água e gelo”, cujo núcleo é o substantivo “copos”. isso quer dizer que “emprestado” deve concordar com “copos” (tomar copos emprestados). Do ponto de vista da análise sintática, “emprestado” exerce a função de predicativo do objeto.

O predicativo é um termo de natureza adjetiva, que indica uma característica momentânea ou circunstancial de um elemento. Se esse elemento exercer a função de sujeito, teremos “predicativo do sujeito” (Os copos não são meus, são emprestados); se for objeto, teremos “predicativo do objeto” (Os seguranças tomaram emprestados os copos da cozinha).

Assim, para corrigir a concordância no trecho em questão, faremos o seguinte:

De tão misterioso o evento, parte da equipe de segurança pôde se dar ao luxo de ficar sentada do lado de fora, de pernas abertas, batendo papo e respondendo a mensagens de texto. Em dado momento, tomaram emprestados da cozinha alguns copos com água e gelo, brindando como se estivessem tomando uísque.

Ordem dos termos e uma questão de gênero

GRAMATICAIS. Os trechos abaixo são partes do relato noticioso de um sequestro, publicado em um dos grandes jornais de São Paulo. Os fragmentos suscitam duas questões linguísticas interessantes, uma de concordância de gênero, outra de ordem dos termos e duplo sentido. Vejamos.

Uma mulher de 48 anos e dois homens, de 54 e 24, foram presos em flagrante por extorsão e associação criminosa. Um homem de 22 anos procurado da Justiça foi capturado na mesma ocorrência. […]

Os agentes foram informados de que uma das envolvidas estava na rua Manoel Nascimento Pinto, no Jardim Guarani (zona norte). A mulher permitiu a entrada no imóvel dos policiais, que lá encontraram dois homens.

A leitura do primeiro parágrafo nos informa que o grupo de sequestradores continha uma mulher e dois homens. No segundo, temos a construção “uma das envolvidas”, no feminino, que estaria correta no caso de haver mais de uma mulher envolvida (“as envolvidas”). 

Rigorosamente, a mulher é um dos envolvidos, pois o grupo é misto quanto ao gênero, mas isso não quer dizer que a melhor correção do trecho fosse simplesmente substituir o feminino pelo masculino. Bastaria ter dito que “a mulher” estava na rua Manoel Nascimento Pinto, sendo essa a mesma mulher que permitiu a entrada dos policiais na casa que serviu de cativeiro (ver abaixo a sugestão de reescrita).

A segunda questão a observar diz respeito à ordem dos termos, que produz ambiguidade. No texto, optou-se por dizer “permitiu a entrada no imóvel dos policiais”. Os termos “no imóvel” e “dos policiais”, em tese, poderiam estar em qualquer ordem, já que os dois estão sintaticamente ligados ao mesmo substantivo (“entrada”). Ocorre, porém, que a sequência “no imóvel dos policiais” traz outro sentido possível, o de que os policiais são os proprietários do imóvel. Evitar essa ambiguidade não era difícil, pois a simples mudança de posição desses elementos tornaria claro o texto (“entrada dos policiais no imóvel”).

É provável que a escolha dessa ordem esteja ligada ao fato de que o redator queria dar continuidade ao texto a partir do termo “policiais” (“policiais, que lá encontraram dois homens”). Ao inverter a posição, a oração adjetiva (iniciada pelo “que”) teria de ficar depois de “imóvel”, o que levaria a outras alterações para manter a coerência e a clareza do enunciado.

Uma possibilidade seria o uso da voz passiva (“entrada dos policiais no imóvel, onde foram encontrados”). Antes de “dois”, vale usar o artigo (“foram encontrados os dois homens”), pois a informação de que havia dois homens já tinha sido transmitida no parágrafo anterior (o artigo definido indica ser o elemento já conhecido do leitor).

Vejamos uma sugestão de reescrita:

Uma mulher de 48 anos e dois homens, de 54 e 24, foram presos em flagrante por extorsão e associação criminosa. Um homem de 22 anos procurado da Justiça foi capturado na mesma ocorrência. […]

Os agentes foram informados de que a mulher estava na rua Manoel Nascimento Pinto, no Jardim Guarani (zona norte). Ela permitiu a entrada dos policiais no imóvel, onde foram encontrados os dois homens.

ATENÇÃO: As imagens usadas nas publicações são meramente ilustrativas e inspiradas no conteúdo do trecho analisado.

“Sobressair” e paralelismo semântico

GRAMATICAIS. No trecho abaixo, extraído de uma notícia de jornal, temos uma questão de regência relativa ao verbo “sobressair” e uma questão de paralelismo semântico. Vejamos:

Já o desempenho das meninas se sobressai na comparação com os meninos. Elas conseguem um resultado médio de 431 pontos, “significativamente superior ao resultado médio dos meninos”, de 408 pontos.

“Sobressair” não é um verbo pronominal (não requer o “se”), tendo sido confundido provavelmente com seu sinônimo “destacar-se”, este sim pronominal. Em suma, algo se destaca (com pronome) ou algo sobressai (sem pronome), segundo a tradição da língua portuguesa.

O paralelismo é um elemento da estrutura sintático-semântica do texto. Ao estabelecer uma comparação, por exemplo, é preciso que os seus termos sejam da mesma natureza. Comparamos o desempenho das meninas com o desempenho dos meninos; não comparamos “o desempenho das meninas” com “os meninos”. Podemos, isto sim, comparar as meninas com os meninos.

No trecho em questão, no entanto, nem mesmo havia necessidade de usar a expressão “em comparação com”, pois o verbo “sobressair” rege o complemento indireto (sobressair a algo). Para assegurar o paralelismo, porém, é preciso dizer que o desempenho das meninas sobressai ao (desempenho) dos meninos.  Vejamos uma sugestão de reescrita:

Já o desempenho das meninas sobressai ao dos meninos. Elas conseguem um resultado médio de 431 pontos, “significativamente superior ao resultado médio dos meninos”, de 408 pontos.

ATENÇÃO: As imagens usadas nas publicações são meramente ilustrativas e inspiradas no conteúdo do trecho analisado.

“Muito” e “muitos”: advérbio e pronome

GRAMATICAIS. O trecho abaixo é o parágrafo de abertura de um artigo de newsletter que trata do famigerado ChatGPT. Do ponto de vista gramatical, vamos ver que houve confusão entre o advérbio “muito” (invariável) e o pronome indefinido “muito”, que se flexiona normalmente em gênero e número. Esse é o nosso tema de hoje.

Muito tem sido as discussões sobre o impacto do ChatGPT desde seu lançamento no final de 2022. Essa ferramenta nada mais é do que uma Inteligência Artificial (IA) que faz uso de um processamento de linguagem natural.

O leitor atento percebeu que faltou o acento diferencial da forma verbal “têm”, cujo sujeito está no plural (“as discussões”). É possível que o autor do texto, ao lançar mão de uma inversão sintática, tenha ficado com a sensação de que “muito” era o sujeito. Vamos tentar entender o que houve.

O que se pretendeu dizer foi que “muitas têm sido as discussões” (ou, na ordem direta, “as discussões têm sido muitas”, isto é, as discussões têm sido numerosas). “Muitas”, nesse caso, é o predicativo do sujeito “discussões”, com o qual concorda em gênero e número.

Outra possibilidade seria dizer que “muito se tem discutido o impacto do Chat GPT”. Nesse caso, “muito” seria um advérbio (discutir muito algum tema) e o sujeito da oração seria “o impacto do Chat GPT” (“o impacto do Chat GPT tem sido muito discutido”).

Basicamente, o advérbio “muito” (invariável) intensifica uma ação (discutir muito), um atributo (muito inteligentes) ou um modo de ação (muito provavelmente), ao passo que o pronome indefinido “muito” (que sofre as flexões de gênero e número) indica quantidade grande, porém inexata.

Temos, portanto, duas sugestões para corrigir o fragmento:

 Muitas têm sido as discussões sobre o impacto do ChatGPT desde seu lançamento no final de 2022. Essa ferramenta nada mais é do que uma Inteligência Artificial (IA) que faz uso de um processamento de linguagem natural.

Muito se tem discutido o impacto do ChatGPT desde seu lançamento no final de 2022. Essa ferramenta nada mais é do que uma Inteligência Artificial (IA) que faz uso de um processamento de linguagem natural.

ATENÇÃO: As imagens usadas nas publicações são meramente ilustrativas e inspiradas no conteúdo do trecho analisado.