GRAMATICAIS. DEU NA MÍDIA. Nos textos da imprensa, o prefixo “ex-” aparece com grande frequência, mas nem sempre da melhor maneira. Como sabemos, essa partícula antecede um substantivo que denota uma condição perdida: ex-marido, ex-namorada, ex-funcionário, ex-presidente etc.
Na linguagem informal, o prefixo chega a ser usado ele próprio como um substantivo e, nesse caso, com o sentido de “ex-marido” ou “ex-namorado” (se estiver no masculino, “o ex”) ou de “ex-mulher”/ “ex-esposa” ou “ex-namorada” (se estiver no feminino, “a ex”). No fragmento escolhido para nossos comentários de hoje, temos o seguinte:
Ex-presidente do Banco Central (BC) durante oito anos dos governos Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Henrique Meirelles defendeu nesta segunda-feira, em entrevista ao [jornal], uma “reforma administrativa rigorosa” para superar os impasses políticos que envolvem o teto de gastos.
Henrique Meirelles, veja só, foi descrito como “ex-presidente do Banco Central durante oito anos dos governos Luiz Inácio Lula da Silva (PT)”. A considerar o que foi escrito, durante o governo Lula, Meirelles era “ex-presidente do Banco Central”, ou seja, tinha sido presidente do BC em período anterior.
É muito provável que o leitor corrija mentalmente a informação por dois motivos: (i) o leitor sabe de antemão que Meirelles foi presidente do Banco Central nos governos de Lula ou (ii) o leitor estranharia alguém ser “ex” durante algum período, dado que a condição de “ex” é permanente.
Para facilitar o raciocínio, basta pensar nos exemplos mais corriqueiros, como “ex-marido”, “ex-namorada”, “ex-diretor”. O prefixo “ex-” indica que a pessoa perdeu uma condição anterior, mas naturalmente não terá perdido a própria identidade. Ao dizer que fulano é ex-marido de fulana, a única informação transmitida é que o casamento acabou e esse homem deixou de ser marido daquela mulher.
Por esse motivo é que, se, por exemplo, um deputado morre durante o mandato, não o chamamos de “ex-deputado” – afinal, ele terá perdido a vida, não o cargo. Então diremos algo como “o deputado Fulano de Tal morreu na manhã de hoje”. Caso o político, em vida, já fosse “ex-deputado”, aí sim, morreria nessa condição (“O ex-deputado Fulano de Tal, que não tentou a reeleição, faleceu nesta manhã”).
Outro uso comum da imprensa são construções como “ex-URSS”, “ex-Febem” e agora “ex-Ibope”. Ora, a URSS, a Febem e o Ibope deixaram de existir. A União das Repúblicas Socialistas Soviéticas desmembrou-se e transformou-se em vários países; a Febem foi substituída pela Fundação Casa.; o Ibope fechou e seus antigos donos fundaram o Ipec, sendo Ibope e Ipec duas entidades diferentes. Nesses dois casos e em outros similares (como Alemanha Oriental, por exemplo), o ideal é usar o adjetivo “antigo (a)”. Assim: a “antiga URSS”, a “antiga Febem”, o “antigo Ibope”, a “antiga Alemanha Oriental” etc.
No caso do fragmento selecionado, como o redator considera importante a informação de que Meirelles foi presidente do Banco Central nos dois governos Lula, bastaria retirar o prefixo “ex-”. Caso isso não fosse importante, seria possível usar “ex-presidente”, mas omitindo o dado temporal. Veja as duas construções possíveis:
Presidente do Banco Central (BC) durante os oito anos de governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Henrique Meirelles defendeu nesta segunda-feira, em entrevista ao [jornal], uma “reforma administrativa rigorosa” para superar os impasses políticos que envolvem o teto de gastos.
Ex-presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles defendeu nesta segunda-feira, em entrevista ao [jornal], uma “reforma administrativa rigorosa” para superar os impasses políticos que envolvem o teto de gastos.